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Pequenos esquecimentos urbanos

Pois é, o livrinho está inincontrável nas minhas estantes – mas é dessas leituras prazerosas que se repete, cita e recomenda: pequenas lembranças recentes ou nem tanto, sem muita relevância histórica. No máximo, provocam a risadinha
que esconde uma saudade. 
Recebíamos dna.Helena Kolody para um chá. Mencionei o tal livrinho e entramos por uma conversa proustiana, lembrando
miuçalha. Ela começou a disparar suas lembranças também: por exemplo, quando tampa de refrigerante era chamada “chapinha” e eram pregadas numa tábua para fazer de capacho e limpar a lama dos sapatos. Peguei um caderno e começamos a anotar coisas que ela mencionava, acrescentando as nossas. Valia de tudo, desde nominações
antigas – por exemplo, “café com leite” era “média” – até práticas como amarrar as extremidades dos bambus para
fazer um coração. Valia lembrar as antigas lojas – e seus slogans comerciais -, bares, restaurantes e logradouros. Valiam os jingles publicitários do rádio (“Varig-Varig-Varig”) e antigos produtos fora do mercado, bem como suas embalagens. Valia antigas árvores cortadas, e práticas como a dos padeiros e leiteiros que entregavam o produto de madrugada, com carrocinha, recebendo no fim do mês. Valiam as antigas agonias, como esperar horas por uma ligação interurbana
“via telefonista” – e criticar que, na era do celular, também é difícil, só tem recadinhos de que a ligação não é possível.
Valiam os velhos remédios, modos de dizer, simpatias. Valiam – e muito! – os brinquedos com os quais as crianças brincavam, não eram eles a brincar com as crianças. Valiam antigas denominações para roupas – por exemplo, “calça comprida” para jeans ou “maiô duas peças” (um escândalo!) para biquíni. Valiam práticas culinárias como fazer em casa a carne moída, na mesma máquina de moer pão torrado para fazer farinha. Ou estender a massa do macarrão na mesa com o
rolo apropriado, ou o martelo de amaciar bife. Enfim, há uma infinidade dessas coisinhas, a maioria das quais, se contada a um jovem, vai fazê-lo te olhar com cara de dúvida. Mas o leitor da era pré-celular provavelmente lembrará muitas – e que, salvo papo nostálgico, dificilmente sobreviverão como memória urbana.
Eu gostaria de sugerir essa brincadeira aos leitores. Peguem um velho caderno – de preferência aqueles com colegiais ou escoteiros na capa, e o Hino Nacional na capa de trás – e comecem a anotar.
Sem preocupações gramaticais ou literárias, é um exercício de descontração e liberdade.
Depois, é ler as notas ou falar delas a todo mundo – ótimo papo durante refeições, cafés, lanches. Eficiente como conversa
paralela em reuniões chatas, ou para preencher aqueles “vácuos” que todo diálogo tem.
Todos vão ter suas “pequenas lembranças” que podem ser contadas e anotadas também.
É muito divertido, e são saudades que não chegam a doer…

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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