Paletó e gravata

Foi no início dos anos sessenta – faz um bocado de tempo, e aconteciam coisas que hoje ninguém acredita quando a gente conta.
Fui a uma matinê – como eram chamadas as sessões da tarde – num cinema bem central da cidade, e verdade seja dita, dos mais bem conceituados.
Comprei meu ingresso e, na hora de entrar, o porteiro me mediu de alto a baixo e disse:
– Você já não é mais criança, não pode entrar sem paletó e gravata.
Fez um sinal para a moça dos ingressos, que me devolveu o dinheiro – e fui, evidente, para outro cinema. Só que não era o filme que eu queria ver… Era uma atitude elitista? Não acho: nessa época, vejam as fotos antigas, nas ruas brasileiras andava-se assim, todo mundo engravatado e de chapéu Panamá – inclusive meninos.
Eu deveria ter objetado:
– Já que não sou mais criança, você deve me dar o tratamento de “senhor”.
Mas, como assinalou o Fernando Pessoa, essas respostas arrasadoras, a gente só lembra depois que a conversa terminou…
É impressionante a dificuldade do ser humano para encontrar pontos de equilíbrio. Faz tempo que deixei de ir aos cinemas, desde que esses fugiram das ruas e foram se esconder nos shoppings. Mas quando passo pela entrada das ditas “salas de espetáculos”, me surpreende o “à vontade” dos espectadores: chinelos-de-dedo, bermudões, camisetas esfarrapadas – me faz lembrar, sempre, que tive que começar a usar paletó e gravata para ver filmes nos melhores cinemas.
Bizarrias não faltam nos “trajes obrigatórios”: em viagem com alunos, fomos impedidos de visitar os interessantes prédios art-déco da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, porque as meninas estavam de short – plenamente justificável no calor daquelas paragens.
Paradoxalmente, uma amiga, trabalhando num jornal em São Luís, Maranhão – ainda mais quente que BH – foi advertida por sua chefia que não deveria comparecer ao trabalho de jeans – considerados muito eróticos para a seriedade do ambiente.
Coisas d’antanho? Antes fosse, todo mundo lembra do caso de uma estudante de faculdade particular, há poucos anos, que causou tumulto e suspensão das aulas por ter comparecido arrumada diferente das demais – e não havia exageros notáveis em sua roupa.
Não sei se me faço entender, mas por mim, as pessoas se devem vestir segundo seus critérios pessoais, bons ou maus. Não preconizo smoking para a matinê em cinema, por melhor que este seja; nem chinelos e camiseta regata em restaurante. Mesmo porque, acho que os extremos – não são raros, é evidente – são atestado de falta de noção e civilidade de quem os pratica. Escassamente, dizem respeito aos demais.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
Compartilhe: