Ou pó ou lama

A renovação da camada asfáltica da rua implicou na remoção da anterior, um deplorável “patchwork” impingido aos moradores pela falta de fiscalização das obras de lançamento de dutos subterrâneos em gestões prefeiturais anteriores.

Os dias entre essa remoção e a colocação da nova fizeram relembrar os tempos – há mais de meio século – em que o revestimento asfáltico era terrível, nas ruas urbanas como nas estradas. Era uma dialética da qual ninguém tem saudades: com sol, poeira; com chuva, lama.

Mas não era só a questão do revestimento, uma série de desconfortos acompanhava a precaridade: as calçadas eram poucas, à exceção dos logradouros mais centrais. E as águas pluviais, não canalizadas, recebiam parte dos esgotos das casas, nas famigeradas “valetas” – origem de maus cheiros e pestilências várias.

As duas situações – pó ou lama – penalizavam duramente as lidas domésticas. A poeira levantada pelos carros – que nem eram tantos – se depositava em cortinas e tapetes, formava camada muito visível sobre móveis e o mais que houvesse na casa. E em outros lugares, ninguém estava livre da nuvem. No entanto, o que veio depois da pavimentação é muito pior: o pó da rua e da estrada sem asfalto é apenas terra; o que vem em seguida é composto de borracha dos pneus e outros derivados de petróleo; coisa tão ruim para os pulmões quanto a fumaça dos cigarros. Acho que nem mesmo se classifica como poluente o pó de terra, embora possa não ser propriamente saudável, enquanto que o outro… é agressivo a todos os seres vivos e a essa delicada camada de ar que envolve e torna possível a vida no planeta.

Nesse sentido, a lama é menos agressiva: com notável exceção ao “mar de lama de nossos governos” – TODOS – apenas vinha nos sapatos e calçados para dentro das casas. Diante das portas, havia uma peça de ferro em forma de “T”, chumbada no chão, para remover as placas mais espessas das solas – e vários tipos de capachos, feitos de telas de arame, chapinhas de garrafas, grades e outros truques para diminuir a sujeira no chão, trazida das ruas.

Essa situação – na seca, pó; na chuva, lama – era comum mesmo em locais centrais de cidades e bairros mais próximos, e ainda é. São produto do crescimento descontrolado e desordenado das cidades, onde os precários orçamentos não dão conta de lançar a chamada infraestrutura urbana. Que é o que existe de mais básico para viabilizar a vida dos cidadãos: água, energia, coleta e processamento de esgotos e lixo, pavimentação, comunicações. Sem contar o pacote seguinte, onde estão a saúde, a educação, a cultura, o transporte, a segurança, o comércio – que devem ser próximos, mas não necessariamente à porta.

Claro – tanta gente vivendo junta – e cada vez mais – não tem como não ser problemático. E as soluções, cada vez mais difíceis e mais caras.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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