Os painés de vidro

Esse problema foi uma descoberta recente: a agressão ambiental que representam os grandes painéis de vidro, sejam os espelhados – caso dos prédios urbanos – seja como proteção em relação a rodovias, como acontece em alguns lugares da Europa.
Mas eles fazem diariamente milhares de vítimas – e entre as mais inocentes e inofensivas – num processo difícil de equacionar e de resolver.
Sempre houve casos de pássaros se chocando contra vidros e espelhos nas elevações das edificações – mas atualmente, com a multiplicação das construções, a coisa toma aspectos sinistros.
Estudei e trabalhei mais da metade da minha vida num campus onde a solução dos blocos didáticos comportava passarelas envidraçadas – avistava-se através dos blocos – e a mortandade era constrangedora. Eu tinha numa gaveta uma pá de jardinagem e a usava para enterrar, em canteiros, os pássaros mortos. Eram insuportáveis os percursos nos quais eu passava por vários animais se decompondo. A manutenção dos jardins era precária e o processo durava muitos dias, e mesmo que essas aves fossem varridas e encaminhadas ao lixo com folhas e detritos, me deprimia. Imagino o que houve de apelidos que tive por conta dessa atividade quase diária.
De prédios maiores, envidraçados ou espelhados, escuto que há zeladores especialmente contratados para recolher os pequenos cadáveres – cuja exposição poderia causar problemas com o público.
A arquitetura em ferro e vidro é tecnologia desenvolvida no século XX, não é o caso de historiar aqui – mas continua a ser praticada, sem que eu tenha intenção de a discutir aqui – muito embora, a agressão ao mundo animal não seja seu único problema. É uma arquitetura de altíssimo custo energético, em parte responsável pelo acúmulo de calor nas cidades e decorrências climáticas.
Os vidros na construção passaram a ter outros usos – por exemplo, muros residenciais e comerciais, e também não há como negar que esteticamente terão seus méritos. Mas mesmo o uso em pequenos painéis, causa o problema de iludirem os pássaros que se chocam contra eles e morrem. Se para quem tem pequena deficiência visual já causam acidentes – já os tive, e sei que muita gente também teve, e graves – imagine-se o quanto são incompreensíveis, inesperados e fatais para não-humanos.
Se para os humanos, faixas na altura dos olhos, feias mas indispensáveis, resolvem; para as aves ainda não há uma solução. Colocar silhuetas de predadores nas placas pode diminuir o problema, mas em proporção insignificante.
Não conheço solução eficiente para o problema, mas é um problema de relacionamento do ser humano com a natureza, e grave: causa muitas vítimas continuamente, é mais uma das nossas violências ambientais. Como no caso dos aviões, cujas turbinas sugam pássaros aos bandos. Não sei como, mas isso tem que ser resolvido; os agressores somos nós.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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