ORELHAS LONGAS

Noel Rosa, deve estar perto de um século, compôs:

Seu garçom faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à bessa
Um guardanapo, um copo dágua bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que eu não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês ao lado
Qual foi o resultado do futebol...”

Quem segue essas crônicas, certamente me imagina com umas orelhas longas como as de jegue – tanto sou dado a escutar o que dizem pelas ruas e lugares das cidades. Se fosse índio, certamente meu nome seria algo assim, tipo “Orelhas-longas”…
Mas é inevitável captar por aí as falas que, para mim, são estarrecedoras. Fazer poucas recomendações, acho que torna mais ameno o árduo trabalho dos garçons: lidar com público, em qualquer lugar do Brasil, é desses empregos tipo penitência; quem morre na profissão vai direto pro céu…
Acho que não é incômodo pedir a carne grelhada “ao ponto”, ou “bem ou mal passada” – e mesmo, nos bons lugares, sempre nos perguntam como a queremos. Já quem pede pão francês “bem branquinho”, mostra desconhecer que o conceito dessa iguaria é, exatamente, que seja crocante – e portanto dourado – por fora e macio por dentro. Alguém pode dizer que gosto não se discute – mas nessa época de gostos e prazeres estapafúrdios, não há como evitar…
No entanto, há quem extrapole nas recomendações e, na verdade, faça papel de chato quando quer fazer pose de exigente. Como regra, a empostação não é de recomendação, mas de exigência a ser atendida como se a pessoa fosse uma baita autoridade em gastronomia. Vejam alguns exemplos, quase inacreditáveis:
– Seu garçom, me vê umas linguiças cortadinhas em pedaços bem pequenos, com bacon e batatas fritas, e ovos fritos com gema mole por cima de tudo. Para beber, uma guaraná diet.
– Seu garçom, me vê um sanduba de bife, mas o bife bem do tamanho do pão, sem sobrar pra fora e sem dobrar pra baixo ou pra cima.
– Seu garçom, chá com torradas, mas as torradas bem no ponto: muito secas machucam as gengivas e muito úmidas fazem mal pra digestão.
Bem… sempre tenho que considerar que o chato sou eu, ao ver nisso assunto a ser registrado. Mas, enfim, cronista existe para mostrar como está a vida urbana, certo?

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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