Olhando para dentro

Claro que os partidários do politicamente correto vão achar que sou um invasor de privacidades – o quê, como tudo o que se passa na cabeça deles, é uma vasta bobagem.
Mas, nas antigas cidades, as casas ficavam ao nível da rua – ou poucos centímetros acima dele – e havia o saudável hábito de, pela manhã, escancarar as janelas “para arejar a casa”. Evidente que não havia, também, o atual pavor da criminalidade na vida urbana.
Então, andar pela rua, era um exercício de sociabilidade – passava-se diante das janelas numa “visita visual” nada invasiva. Era, até mesmo, desejada, as pessoas ficavam nas janelas para cumprimentar e puxar um papo com os passantes. Não havia nem mesmo a exibição “das alfaias belas ou, simplesmente, ricas” como dizia Machado – nem medo, havia descontração e cordialidade, a vida urbana em seu melhor.
No século XIX as cidades brasileiras cresceram, e no XX, com a urbanização, explodiram – e com elas o viver numa sociedade de pessoas sem neuroses. As casas passam a ser construídas afastadas da calçada e em nível acima do delas – o que terá sua conveniência estética e funcional mas, basicamente, a preocupação de que “estranhos não fiquem olhando para dentro da casa da gente”.
Em pequenas cidades interioranas, essa descontração ainda existe: às vezes, portas abertas mostram para além dos espaços sociais, chegando aos fundos, nas áreas de convivência familiar.
Visitante – Ó de casa!
Morador – Ó de fora!
Visitante – Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Morador – Para sempre seja louvado!
Visitante – É de paz!
Morador – Sendo de paz, pode entrar!
Ladainha ao longo da qual, é evidente, o morador identifica e acolhe o visitante.
É um lugar comum nas minhas crônicas, mas é claro que “os tempos são outros”. Não é de se esperar que esses rituais se prolonguem em tempos onde tudo é cálculo custo-benefício. Mas acho que não custa dar uma pensadinha comparativa, com o momento atual.
Depois de avisar pelo celular, chegamos à casa de um amigo. Claro, estou supondo que ainda há quem faça isso em vez de mandar e-mail ou zap-zap. Mas chegando, acionamos o porteiro eletrônico. Ele atende, nos identificamos e o portão externo é aberto. No edifício em si, para além da área de estacionamento, repete-se a operação, e mais um portão é liberado. No elevador, somos inspecionados por câmeras, depois chegamos à porta da residência propriamente dita. Somos então, verificados pelo “olho mágico”. A porta afinal é aberta, e somos recolhidos às pressas, para não ficarmos no corredor onde pode haver um marginal escondido.
Somos recebidos numa sala com cortinas e/ou venezianas, sempre fechadas – mesmo porque, o que há para ver, para além delas, é apenas o prédio em frente, com todas as janelas opacas, fechadas.
E há quem ache que isso é o progresso!!!

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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