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Obrigatoriedade musical

Não, não é coisa de velho rabugento – muita gente jovem reclama disso também. Estarei me referindo adiante a abusos sonoros internos – dentro de bares e restaurantes. Se por um lado em alguns ambientes de balada exclusivos de gente que não conversa ao vivo, só pelo celular – é evidente que deva ser tolerado, onde o público for genérico, e é a maioria dos lugares, trata-se de um exagero capaz de espantar freqüentadores.
Uma prática recente, e que acho muito compatível e aceitável, é a dos monitores de TV – ligados sem som. As pessoas acompanham suas novelas e programas – mas só quem quer. Escusado dizer que prefiro ficar de costas para esses aparelhos, a atração pra mim é a comida na mesa à minha frente…
O ruído urbano – para não dizer a barulheira, estressante e enervante, está a pedir por medidas mais drásticas. Evidente que não só a nível legislativo, mas de controle efetivo com punições rigorosas. Não me venham com conversa de que informação resolve, porque é conversa mole: sem punição, não há solução. Porque não se trata de informar que os ruídos são nocivos à saúde – o que os barulhentos sabem muito bem – e não só pela via do stress: danos efetivos, imediatos e reais são provocados por eles. Seria questão de informação se se tratasse de produção involuntária, mas muito pelo contrário, é intencional e com intenção realmente anti-social, irresponsável, deliberadamente ofensiva. Os dados referentes a esses danos são escamoteados, relativizados, omitidos por uma legislação permissiva, eleitoreira e pusilânime.
Nos litorais, começou-se timidamente a controlar os sons dos carros – e todos sabemos com que pouca vontade de que o objetivo, que é a redução da emissão sonora, seja atingido. E aqui se demonstra como a irresponsabilidade, a agressividade e uma absurda falta de noção são os agentes da poluição sonora: onde não houver uma viatura estacionada, haverá produção de ruído agressivo. Lugares onde se vai para fugir do estresse urbano, como parques e praias, estão sempre apinhados de idiotas com o som de estremecer a dezenas de metros, sem outro objetivo que incomodar. Isso, bem por baixo das ingênuas e inúteis placas de “proibido som alto”.
Na verdade, entendo que é difícil agir nesse sentido. O som de carros – e das motos, com freqüência pior – seja nos poderosos auto-falantes seja nos escapamentos – é apenas uma parte do problema. Veículos que não poderiam trafegar nas áreas urbanas, como caminhões com caçambas, cegonhas e quetais, são produtores de infernais incômodos e prejuízos para as construções. Equipamentos de obra, de jardinagem, de oficinas – são agravantes de uma situação que contribui para tornar a vida urbana desconfortável sem a menor necessidade.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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