O sonado

Evidentemente, estou usando um eufemismo: todos os sinônimos da palavra, inclusive os sugeridos pelo dicionário, são altamente ofensivos ou politicamente incorretos. Então vamos ficar mesmo só na impressão que temos de certas pessoas que parece estarem sempre “dormindo no ponto” – eu avisei que a coisa era politicamente incorreta…
O sonado é aquele cara – ou aquela cara, evidente – profundamente reflexivo e introvertido, sempre elaborando altas filosofias – e escolhe para isso o momento de passar uma catraca diante de uma fila de gente que também precisa do acesso. Ou de passar uma porta comum, obstruindo-a. Ou estica uma “conversa de sinal fechado” enquanto este abre e fecha de novo. Ou atravessa a faixa de pedestres bem devagar olhando em volta provocativamente, como se estivesse a sós no planeta: “rá rá rá, vocês vão ter que me esperar!” No tempo dos telefones públicos ficava contando gracinhas ao interlocutor enquanto pessoas formavam fila esperando a vez.
No trânsito, onde a lerdeza é tão problemática quanto a afobação, o sonado torna-se um estorvo irritante, Para ele, o celular com internet é o caos – para os outros: não vê o sinal fechar e bate no carro da frente, ou quando o sinal abre está terminando de responder a uma mensagem…
Claro que seria fácil encher páginas e mais páginas com o estresse causado pelos ansiosos e pelos sonados – mas tal não é o objetivo dessas crônicas, que pretendem registrar em rápidos bosquejos, coisas da vida urbana. De preferência, não causando mais que uma risada e um pensamento fugaz quando a situação se apresenta: “esse é o cara sonado daquela crônica…”
E devem ser lidas pensando que, um pouco mais um pouco menos, todos temos nossos momentos de ansiosos e de sonados – então trata-se apenas de estar mais atento ao que acontece em volta. Num mundo que se concentra cada vez mais nas cidades, e estas ficam cada vez mais apinhadas de gente – todo lugar tem fila e toda fila anda devagar, certo? – é muito fácil incorrer em esbarrar na impaciência alheia.
Sou de uma cidade da qual se critica muito o hábito dos moradores de não puxar conversa nas filas, nos elevadores e nas esperas em geral. É o nosso jeito e temos direito a ele – acho que o tempo nas esperas pode ser bem aproveitado para pensar um pouco, coisa que o mundo não nos está concedendo e é importante. Acreditem ou não, crônicas nascem com facilidade em situações de imobilidade forçada: e nem é preciso ir prá cadeia prá isso.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com