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O planeta está no saldo consignável

A Global Footprint Network está advertindo, mas me parece que a coisa não está sendo levada tão a sério quanto deveria: desde 29 de julho, explodimos a capacidade de recuperação do planeta. Mal comparado, estamos no saldo consignável, no limite concedido pelo banco. Só que esse excedente terá que ser reposto, não se trata de doação a fundo perdido. Em termos do nosso planeta, dá pra dizer que agora, não há mais reposição possível: outra comparação talvez infeliz, mas por nada exagerada, é que começamos um processo “bola de neve”, cada vez mais rápido e, a partir de agora, irreversível. Enquanto que entrar “no vermelho” bancário pode não ser motivo para pânico – trata-se só de apertar o cinto, manipular os gastos para emparelhar com os ganhos – em termos no nosso pobre planeta, as medidas a serem tomadas são muito mais drásticas, porque de difícil compreensão e mais difíceis ainda de efetivação.
Como fazer para conscientizar os donos do próprio planeta – os que detêm o capital de quase toda a humanidade – e seus executivos, os políticos – do que tem que ser feito? Como fazê-los entender – e aceitar – que a lógica capitalista de permanente expansão tem que ser revertida, e que isso levará mais tempo do que o disponível? Como chegar pra esse pessoal e dizer: “olha, não pode mais crescer e nem mesmo estabilizar – tem que diminuir?” Como fazer isso, aliás a pergunta certa é “isso pode ser feito, ainda vai conseguir retardar o inevitável’”? Quer dizer, o processo só para quando a bola de neve chegar ao fundo do precipício – o que, não é difícil imaginar, não será nem um pouco agradável.
Nunca faltaram avisos, que se tornaram cada vez mais dramáticos e mais frequentes na medida em que os ignoramos e continuamos nossa irresponsabilidade expansionista, avançando os sinais vermelhos como se não existissem. De fato, sempre achamos que haveria tempo, que a eternidade estaria à nossa disposição para a recuperação – mas essa recuperação teria que ter sido iniciada há um século ou mais. Quando Malthus alertou que “a coisa” estava indo mal, foi ironizado, ignorado, foi jogado para o limbo – afinal, havia outras ideologias para se acreditar, todas elas acenando com a ascensão e/ou permanência no poder e grupos políticos – todos expansionistas, nenhum preocupado com o suporte primeiro da humanidade, que é o planeta. Isso pode ficar pra depois de estarmos irreversivelmente consolidados no poder, certamente é o que pensavam, se é que tinham capacidade de pensar.
Bom, aí está o resultado das disputas ideológicas, no fundo apenas disputas irresponsáveis pelo poder e pelo capital. O que estamos assistindo é o “ladeira abaixo”: há quem não queira ver nem se preocupar com isso. Tenho pena dos seres que nunca tiveram nada a ver com a insanidade dominante e que serão arrastados para o fundo: vegetais, animais, paisagens – e, principalmente, as futuras gerações.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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