O nome do lugar

Antes de mais nada, convém esclarecer: no texto a seguir, estou me referindo apenas aos nomes das cidades e lugares, não às cidades ou lugares em si.
Me surpreendi com a recente colocação de que no nome “Itajaí”, é duvidoso que ita seja “pedra” como em outros nomes de origem indígena – mas, como não sou da área, fico só na surpresa mesmo. E me ocorre que essa questão dos nomes das cidades e lugares no Brasil rende conversa.
Sempre achei que os melhores nomes são os deixados pelos nativos – não consigo pensar em nada melhor para Curitiba, por exemplo, que “lugar com muitos pinheiros”. Quer dizer, isso no tempo dos índios, antes da extinção da “árvore mais bonita do planeta”…
Mas chegam os portugueses, católicos até onde se pode ser, e vão dando nome de batismo aos lugares – alguns “pegaram”, outros não – alguns, mesmo, somaram o nome precedente ao novo: “Vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais de Curitiba”, fica até sonoro.
Todos ouviram falar da Ilha de Anhato Mirim, perto de Floripa. Bem, “Anhato Mirim” em língua de índio, é “diabo pequeno” – de onde resulta que o nome da magnífica fortaleza aí construída pelos lusitanos ficou “Santa Cruz de Anhato Mirim”, ou seja, “Santa Cruz do Diabinho”…
Com todo o respeito, estima e consideração pela língua portuguesa, acho que os melhores nomes são sempre os indígenas, porque se referem a uma característica física do lugar – então, para se referirem ao local, a visualização está contida no nome. Nome melhor que Iguaçu, “água grande”, nas imediações do Rio Paraná, ninguém vai achar.
Até aí, tudo bem. Mas a multiplicação dos municípios brasileiros durante o século 20 levou a “batismos” que absolutamente são inexpressivos. Muitos adotaram topônimos e regionalismos, no que andaram muito bem, seguindo o padrão indígena: referências físicas já consolidadas. Tipo de campo ou vegetação, configuração do rio ou outra formulação geográfica dominante, um acidente que marcou a gente do local. Ou mesmo, animais da fauna local: “Guarapuava”, por exemplo.
Vejam que até aqui acho os topônimos brasileiros interessantes. Mas surge uma fase em que se começa a sentir o dedo político, com adoção do grego “polis” ou do bretão “land”. Temos então, e só como exemplo, “Prudentópolis (homenagem a Prudente de Morais) e Clevelândia (homenagem a Cleveland), entre outros piores. Menos mal quando se adotou nomes referidos à arte, como Francisco Alves (que nem sequer nasceu por lá, era carioca); Maringá (conhecida canção); ou Treze Tílias (poema austríaco).
Bem, o assunto vai longe – e a preocupação principal é que estamos, com homenagens no meu entender descabidas ou exageradas, consolidando nomes que, no mínimo, poderiam ser mais representativos para as cidades.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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