Home Colunistas Crônicas da vida urbana O humor, urbano e rural

O humor, urbano e rural

Entre o humor urbano e o rural, não há dúvidas: o primeiro se constrói sobre acontecências – “melhoradas” em suas características narrativas. Mas existe sobre o real ou imaginário imediato, palpável. Enquanto o segundo praticamente inexiste por si, sendo referenciado e condicionado cada vez mais pelos modismos televisivos. Evidente que existe sempre uma escala de nuances entre uma coisa e outra – que desaparece com o avanço, onipotência e onipresença dessa mídia.
A qual, por sua vez, também se está dissolvendo diante de uma mídia mais poderosa: a da internet e, principalmente, do celular. Se para o bem ou para o mal, tenho dificuldades em visualizar – provavelmente, nem uma coisa nem outra. Mas enquanto a TV se torna cada vez mais apelativa e servil aos interesses políticos e capitalistas, na internet há um caos libertário, potencializado pelo imediato e pela incontrolabilidade dos celulares. Conseqüência primeira e ainda sem previsibilidade de seus rumos, a irresponsabilidade e inconfiablidade. Mas queremos falar do humor que, por essas mesmas razões, se torna mais impactante – e impactar é aqui o verbo principal, uma arma poderosa numa encrenca onde é difícil encontrar uma posição.
Uma parte substancial do “humor de celular” não é produzida intencionalmente – são cenas que se pretendiam registros domésticos, grupais, de interesse restrito. Mas acontece o imprevisto – e o imprevisto sempre acontece, quando há alguém registrando – que se torna, não digo cômico, mas humorístico.
Robert LaPalme, coordenador do Salão da Caricatura de Montreal – em vida, um dos maiores entendidos em humor do planeta – dizia que o humor é a intersecção de plano inesperado com o normal: era pra acontecer uma coisa e acontece outra. Salvo a eventualidade de tragédia, como regra pode resultar numa situação engraçada.
E aqui o humor completa o ciclo e volta à sua natureza de “causo” – o mesmo episódio, se contado por um bom narrador, pode ter o efeito dos filminhos. Como um romance contado por um escritor e sua versão cinematográfica: sempre a leitura do livro fará uma “ligação direta” entre autor e leitor, mais forte que com a intermediação de um diretor. Este, quanto mais competente for, mais imporá sua leitura do romance ao espectador.
Que diferença há entre pessoas reunidas na cozinha de uma casa, conversando, contando causos e rindo; e outro grupo ao redor de uma mesa, passando o celular de um para o outro, mostrando os filminhos que recebeu?
Muita, é claro: a primeira situação é memorável, coloquial, direta – enquanto que a segunda, provoca apenas risos forçados.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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