O frio da infância

As pessoas que hoje reclamam quando esfria, na verdade não sabem o que é – ou foi – o inverno. Antes que o processo do aquecimento global chegasse aos níveis de fim-do-mundo de hoje, a estação era pra valer – começava nos idos de março e se estendia até setembro. Tinha picos em junho – mês de festas juninas com fogueira e quentão; e julho, mês de férias…
As mães, avós e empregadas tiravam das prateleiras altas dos guarda-roupas acolchoados e cobertores mais grossos, que eram postos ao sol para arejar e perder o “cheiro de guardados”. Havia uns reforços nos guarda-roupas: blusas (de lã natural); bonés “de leiteiro” (com aba para proteger a nuca e as orelhas); luvas (de lã, mas o status eram as de couro); ceroulas e, se o do ano anterior não servia mais, um capote (não se dizia “japona”, palavra que entrou em uso nos anos 60).
Para a noite, pijamas de flanela e pantufas. Em algumas casas, sob recomendação médica, reforço de vitamina C (uma delícia, parecia refrigerante!), Emulsão de Scott (também bom, mas muita gente abominava) e barrinhas de manteiga de cacau para passar nos lábios ao sair para a aula de manhã cedo – e que dava vontade de comer, com aquele cheiro de chocolate.
Quando o céu estava limpo à noite e o vento gélido, a geada era muito provável. Então, antes de recolher, colocava-se panos encharcados no varal ou no gramado, amanheceriam duros como tábuas. E era bom caminhar pela grama das praças sentindo o gelo crocante sob as solas – mas só um pouco, para não molhar e esfriar os pés, resfriado certo no dia seguinte.
Mesmo no sul, nunca tivemos a prática da calefação nas casas – tínhamos algo muito mais agradável, que eram as lareiras. Nelas se aqueciam tijolos que, devidamente embrulhados, eram colocados junto aos pés, na cama, ao deitar. Ficava aquele calorzinho até amanhecer. Mas havia histórias tenebrosas de gente que levava brasas para os quartos e amanhecia morta, por falta de oxigênio. Os aquecedores elétricos eram pouco difundidos, pelo alto consumo de eletricidade.
Sabia-se que, para algumas culturas, a geada era um carrasco, podendo elevar o preço de alguns gêneros. Nos cafezais, era um caos para a economia.
Mas o mais interessante desse frio, lembrando agora, é que ninguém reclamava! Fazia frio porque era inverno, esperava-se que fizesse frio e tinha que ser assim.
Atualmente, umas linhas no termômetro abaixo da zona de conforto, deflagra uma jeremiada que é o assunto central das conversas. E isso considerado que, todos os frios de um inverno, somados, talvez não cheguem a uma semana. A presença cênica das geadas, nos parques, chega ao nível de atração turística.
Deve ser mais um efeito do anunciado “envelhecimento da população brasileira”: estamos nos transformando num país de reclamões.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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