O cheiro do porto

As cidades portuárias, a mercê do acúmulo dos produtos que por elas são exportados, costumam ter odores que lhes são característicos e nos marcam a memória. Mais que as cidades com outras atividades econômicas mais fortes, os portos conseguiram ser olfativamente personalizados – é claro que estou falando de décadas atrás…
Atualmente, esses cheiros estão desaparecidos – ou porque mudaram os ventos das economias exportadoras, ou porque o cheiro da poluição encobriu os demais.
O mais forte remanescente da minha infância, é o de Itajaí: atravessar a então pequena cidade, era transitar entre montanhas – literalmente – de madeira de pinheiro, com o conhecido cheiro de resina, muito agradável.
Hoje, atravessamos áreas da cidade entre cordilheiras de contêineres, que exalam um cheiro bem menos agradável, entre metal ao sol, maresia e poluição mesmo.
Da mesma forma, Paranaguá: os sacos de café não eram armazenados ao ar livre como a madeira – erro que custou a esta sua reputação nos mercados – mas em enormes depósitos. Por serem fechados, as emanações dos grãos de café, não sendo ventiladas, eram concentradas no recinto – e, quando das aberturas de portas para entrada ou saída do produto, o cheiro era muito forte. Ruim não era, consistia numa composição com um pouco de cheiro de mato, com café mesmo…
Esse cheiro dos grãos de café foi trocado pelo da soja, bem menos intenso e menos – no meu caso… agradável. Também as técnicas de armazenamento são outras, embora presentes na cidade e nas rodovias que lhe fazem o acesso… Principalmente nessas, a perda de grãos que são atropelados pelos carros e caminhões, denuncia a aproximação do porto de saída, com um odor muito característico.
Bem, o que mais apreciei, nesse percurso odorífico dos portos brasileiros, foi o cheiro de São Luís do Maranhão: o centro da cidade tinha forte cheiro de coco, dado o processamento desse óleo para exportação. Em minha mais recente visita a essa cidade, o cheiro não existia mais – e, surpreendentemente, os moradores não lembram mais de que algum dia tenha existido…
Dessas experiências olfativas relacionadas com cidades, mas não necessariamente com economias de mercados regionais, a que mais me marcou foi desembarcar do ar condicionado de um jato da TransBrasil no aeroporto – então Val-de-Cans – em Belém do Pará: quando a porta do avião foi aberta, todos os passageiros sentiram um forte cheiro de Amazônia. Composto de ar muito oxigenado, unidade do rio e das inúmeras mangueiras que então sombreavam as quentes ruas da cidade.
Bem, outros tempos, e, nas mesmas cidades, outros aromas…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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