O chão que elas pisam

No Decumanus Maximus – isto é, a avenida central no planejamento urbano do exército romano – de Óstia, é difícil não pensar nos personagens que por ali transitaram. A cidade era o porto de Roma, vale dizer, a porta de entrada do Império mais poderoso do mundo. A caminho da sede do Império, seja em visita de cortesia seja para acatar decisões do SPQR, gente que fez nossa civilização passou por ali – e os atuais visitantes sentem que assim foi.
Mesmo dentro do cenário impressionante, no calor daquele verão, havia um espetáculo à parte: uma turista, evidentemente chegada de algum recanto da Gália Transalpina, passeava parecendo saída de uma festa ou balada: vestido curto e esvoaçante, saltos stiletto. Itens, evidente, mais para os tapetes das passarelas modernas do que para o calçamento de pedras arredondadas, de dimensões muito variáveis, algumas com sulcos devidos à passagem de bigas e similares.
A moça estava acompanhada de pequeno grupo – que se divertia com sua dificuldade, claro que inesperada, de andar naquele calçamento. Feito para as rudes caligae dos legionários romanos, e não para etéreas ginastas olímpicas…
Mas além de andar num calçamento difícil, ela não deixava de observar a extraordinária paisagem e cometia outra proeza, maior ainda: mantinha o charme. Encarava o passeio como um desafio esportivo ao qual não havia escapatória – e ria, se divertindo consigo mesma. Como as crianças que, numa calçada de lajotinhas, brincam de “eu só ando nas pretas e você só anda nas brancas”.
Cleópatra, em visita a Júlio Cesar, provavelmente passou pelo Decumanus Maximus de Óstia – é claro que carregada por seus escravos. Mas dá pra imaginar que em alguma paradinha para um xixi ou um lanchinho numa taberna, e adejou sobre as pedras, calcante pede, como a turista do século XXI. Que parecia a reencarnação impossível da rainha egípcia, visto ser uma nórdica.
O calçamento das ruas parece uma atribuição indispensável da vida urbana, um conforto tido como imprescindível. Dá pra dizer que “dize-me onde pisas e te direi quem és”: calçadas de madeira no Far West americano; pedras ferruginosas nos interiores dos estados do Sul do Brasil; mosaicos em construções romanas e bizantinas; lindíssimas calçadas portuguesas bordadas no chão urbano das terras lusitanas…
Ouço dizer que em Paris as calçadas são de cimento e asfalto e tenho pena: uma cidade tão rica em monumentos, testemunhos de uma civilização refinada e tão sem imaginação para criar um simples calçamento…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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