Home Colunistas Crônicas da vida urbana O ansioso e o sonado – (2 de 3)

O ansioso e o sonado – (2 de 3)

Não sei qual é o mais incômodo numa situação urbana em que se faz necessário olhar em volta e perceber, minimamente, nossa posição em relação aos demais. Tipo assim, como num jogo de xadrez sem jogadores, onde as peças articulassem as jogadas entre si – o objetivo é a eficiência, ganha o jogo, quem perder menos tempo…
Comecemos, por ordem alfabética, pelo ansioso. Todos o conhecemos: está sempre agitado, reclamando na fila mesmo quando esta caminha rapidamente e os responsáveis pelo serviço que se aguarda, estão a pleno vapor, sem se enrolar, cumprindo direitinho sua obrigação de atendimento. Daí o ansioso faz “tsk” a cada minuto, pra dar a entender que é uma pessoa muito ocupada e aqueles minutos preciosos estão para serem empregados em outro lugar com mais proveito. O quê certamente é apenas empostação, está é louco pra perder tempo com alguma bobagem urbana.
É o primeiro na fila do banco quando este está para abrir pela manhã, passa pela porta giratória como um furacão e, se esta trava porque ele esqueceu o celular no bolso, fica furioso. Pega duas senhas, uma prioritária e outra normal, para chegar antes ao caixa, que metralha com perguntas cujas respostas está cansado de conhecer. Depois vai ao gerente – reclamando se tem alguém sendo atendido antes, andando de um lado pro outro impaciente – que aluga durante um tempo enorme, os outros que esperem, certo? – para conferir o que já conferiu antes, reclamar que o banco está cobrando pelo extrato só porque ele tira dois por dia. Se o gerente vai buscar um papel na impressora, vai correndo atrás dele, inclinado para a frente e com cara de mau humor, para pegar o papel ainda quentinho e estalando. Volta à sala do gerente para conferir os dados impressos, confrontar com o extrato de ontem, e assim por diante. Quando ele sai, todo mundo solta um suspiro de alívio, porque consegue passar uma sensação desagradável de ansiedade, desconforto e antipatia.
Se o acúmulo é num serviço público, faz proselitismo de sua ansiedade, reclamando à pessoa do lado, concluindo com um “ah, funcionário público é assim mesmo, o salário no fim do mês vem nem que não trabalhe, tinha mais é que mandar todo mundo embora”.
No trânsito, faz lembrar aquela frase do Millôr: “fração de segundo é o espaço de tempo entre a abertura do sinal e a buzinada de um imbecil atrás de você”. Isso considerado que parou o carro meio sobre a faixa de pedestre, segura a direção inclinado para a frente e, se alguém começou a atravessar a rua antes de mudar o sinal, toca em cima, xinga e sai cantando pneu.
Claro que não é só isso – mas também não é o caso de acumular situações para um tratado acadêmico sobre a chatice urbana. Menos ainda, sobre os chatos, que precisam é de camisa de força e cela acolchoada…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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