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O amor nos tempos do vírus

A gente começava nos tempos do colégio: não apenas depois das aulas, esperando a saída do turno das meninas – acreditem, era obrigatória a separação de gênero! – mas em atividades mais ou menos padronizadas, tipo cursos de língua e pré-vestibular, matinê e cinema, festinhas de aniversário, footing em ruas e praças pré-determinadas. Claro, nessa idade a gente ainda é muito idiota – quem disse que “todo mundo é idiota aos 16 anos”? – e a coisa pegava melhor nos tempos de faculdade, com a cabeça mais pronta – um pouco – mais encaminhamento para uma vida profissional, a exigir mais reflexão, maturidade – e, certamente, tendências individuais mais consolidadas.

Mesmo porque depois de entrar na faculdade, há mais ambientes propícios: as próprias aulas em ambiente mais livre, estágios, cursos paralelos, viagens, shows e eventos e, evidente, os botecos. Esses se apropriaram da sociabilidade em todas as idades até… esse ano. Quem conheceu nossas cidades há uns 10 ou 20 anos fica admirado com a proliferação de bares – agrupados ou não em regiões, mas nos fins de semana apinhados de gente, principalmente jovens. Tenha o álcool o papel descontraidor que lhe atribuem ou não, ele é apenas o catalizador da garotada que precisa mais é dos pontos que de cardápio, tanto que tomam qualquer coisa que tenha anúncio na TV. Nem que o anuncio seja bom e a bebida horrível.

Então, a virtualização da sociabilidade é simultânea com sua exteriorização nos bares, estando portanto ligadas – quem puder, explique. Daí chegamos aos tempos do cólera, digo, do Vírus Chinês. A citada proliferação de bares, botecos e pontos de encontro, já decorre do fator virtual, digital ou seja lá como queiram chamá-lo. Tudo acontece nas telinhas antes de acontecer na real.  Claro que isso terá suas conveniências – se insere com perfeição nas determinantes do mundo neoliberal.

O que se descobriu com o Vírus Chinês obrigando ao distanciamento social, é que o virtual não chega – nas satisfaz plenamente, ao menos. Haja à vista a fissura imprudente pelo fim da quarentena, único recurso eficaz de segurar a mortandade.

Já recomendei a leitura de “Os Noivos”, de Alessandro Manzoni, com cenário de peste bubônica, e acho que dá o que pensar “A Peste” de Camus; como ainda “O amor nos tempos do cólera”, do grande Gabriel García Márquez. Em todos eles, abordagens diferenciadas do desespero do amor sob a ameaça das pandemias.

É bom saber pensá-las – há rumores de que vêm mais por aí.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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