Nuvens no horizonte

Já é quase impossível nas nossas cidades adensadas e verticalizadas pelo imobiliarismo: mas já foi um exercício quase de futurologia. E, cá entre nós, nos nossos tempos, com toda a fabulosa tecnologia de satélites, antenas, drones e o escambau, a coisa não melhorou muito. Continua difícil ou impossível saber com que clima contar durante o dia. Para os homens não faz muita diferença: jeans e camiseta resolvem qualquer situação. Mas para as moçoilas, com o dever de tornar o visual das nossas feias cidades mais palatável?!
Eram os padeiros e leiteiros de d’antes a nos trazer a previsão: vindos de áreas rurais, ainda que próximas das cidades, dispunham de indícios oferecidos pela natureza, que careciam apenas saber interpretar.
– O céu tá limpo, mas esse ventinho é de chuva…
– As saracuras cantaram cedo, então vai mudar o clima…
– A lua ontem estava muito vermelha, é seca na certa…
E assim por diante. Indícios que, evidente, também podem falhar ou iludir na interpretação.
Mas a civilização urbana também tinha seus indicadores seguros:
– Reumatismo está doendo, vem chuva na certa.
– Nuvem de carneirinho, chuva pertinho.
– Neblina baixa, sol que racha.
E, claro, aqueles mais para os lados da antropologia meteorológica:
– Se eu sair com o jeans branco, acaba a estiagem…
– Sol e chuva, casamento de viúva…
– Carnaval e Sete de Setembro, é chuva infalivelmente…
Nada adianta: nossas previsões põem e São Pedro dispõe… Um amigo meteorologista deu mais uma razão para as previsões equivocadas de seu laboratório:
– Não agüento mais gente ligando para o observatório perguntando se pode sair de casa e deixar a roupa no varal… dá vontade de informar errado…
Era só piada, evidente. Há décadas, havia no alto de um prédio um indicador: luz verde intermitente, significava bom tempo; vermelha indicava chuva e amarela, tempo sujeito a variações. Em pouco tempo, o apelido dado ao sinal, e inevitável, foi “amarelinho”…
Até a década de cinqüenta, algumas casas dispunham de mirantes, as cidades de belvederes: dali, o horizonte se avistava com facilidade, e a previsão, válida por algumas horas, estava ao alcance de todos. Exemplo que me ocorre, e raçudo, é a casa de Santos Dumont em Petrópolis: de um mirante, o inventor do Airbus avistava os horizontes e sabia o que esperar em suas experiências voadoras.
Parece que existe tecnologia para previsões minuciosas, em regiões sujeitas a hecatombes climáticas. Prefiro acreditar que algum dia vamos aprender as lições da Natureza e respeitar mais o nosso planeta.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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