Nossos limites

Essa palavra, “limites” – sempre me lembra um ponto que sorteei numa prova de História, no ginásio: “Tratados de limites; o Barão do Rio Branco”. Não era dos pontos que eu houvesse estudado – evidente que escolhia os que me agradavam e confiava na sorte para que fossem sorteados. Não aconteceu, mas eu era leitor assíduo de Francisco Marins – e foi fácil “puxar” a argüição para Plácido de Castro e a Questão do Acre…
Bem, o Acre fica um bocado longe. Deve ser muito interessante, mas os “limites” desta crônica são os da atuação de um cidadão comum: até onde podemos/devemos ir?
Porque nossa responsabilidade para com a urbe não acaba na porta de entrada da casa. E tenho uma certa ideia expansionista a respeito: deve ir até onde for possível, independente do que nossos legisladores – muito aquém da competência do Barão, é sabido – preconizam.
A preocupação central é com nosso entorno imediato, e isso não é um raciocínio egoísta. Não significa que achemos as imediações dos lugares que freqüentamos para morar, trabalhar, circular, ter lazer – mais importantes que as demais na cidade. Mas que, na nossa prerrogativa de usuários, conhecemos suas características, seu desempenho urbano – e atentar para suas necessidades de melhoria, manutenção, adequação é apenas obrigação cidadã.
Não significa também sair de ferramentas ao ombro para “resolver” problemas – é muito possível que, sem preparo técnico adequado, a gente consiga piorar as coisas. A primeira providência, detectado um problema, é alertar as autoridades que têm obrigação de providenciar sua solução. Evidente, que algumas vezes é mais imediato jogar terra num buraco do que esperar: entre os milhares de buracos nas ruas da cidade, o nosso poderá demorar até ser consertado, vai depender de uma série de fatores administrativos fora da nossa percepção de incomodados. Mas é assim que tem que ser: inclusive, fornecer dados que ajudem na solução – nem todo incômodo urbano é apenas um buraco no asfalto – faz parte do dever de cidadania.
E aí, não há limites: movimentar outros incomodados, fazendo perceber aos responsáveis que não se trata de mania ou chatice pessoal, mas atinge mais pessoas – vale lembrar, que são moradores, usuários e eleitores. Incomodar, sim, insistir até que “a coisa” seja resolvida. Pagamos impostos para quê, afinal?!
Eu diria mesmo que não se trata de apenas exigir com relação ao que diretamente perturba: aquilo que sabemos que é um incômodo urbano, deve ter nossa participação, ainda que, à primeira vista, seja de difícil solução. Mas TODO problema tem que ter solução, numa cidade minimamente civilizada e, acrescentemos, consciente disso. Estar equipada e tecnicamente preparada para descascar abacaxis, faz parte das obrigações das esferas administrativas.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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