No sol e na chuva

Não invejo aqueles lugares de clima estável, sempre igual, previsível. A monotonia desses climas me faz pensar que não existe, nessas regiões, caracterização de estações. Minha cidade é famosa pela variabilidade: é lugar comum dizer que temos “as quatro estações do ano durante um dia”. Ou então, a afirmação sarcástica: “por aqui, em matéria de clima, pode tudo.”
Em outras cidades, no centro do país, perguntei a um senhor se poderia chover durante o dia, afinal havia umas nuvens meio escuras no céu. Resposta meio irritada dele: “Claro que não vai chover, não é época de chuva. Aqui não é aquela bagunça de vocês lá embaixo, não!”
No entanto, só a chuva ou ausência dela não faz a regularidade do clima. No Norte do país, se ainda não bagunçaram com isso, havia a chuva pontual: aí pelas 15h50 as pessoas começavam a procurar abrigo porque às 16h, vinha aguaceiro – muito bem vindo para refrescar o calor das tardes daquelas latitudes.
Entendo que é principalmente a temperatura que dá o conforto ou falta dele – dentro dos limites dos nossos hábitos de vida inteira. Um manauara treme de frio com os 20º de Curitiba – que, para nós, é temperatura mais do que agradável.
Mas é que aprendemos a conviver com as variações. Num encontro de estudantes, percebi que nortistas e nordestinos tremiam de frio – mas de short e camiseta, quando a temperatura, aí pelos 17º, exigia agasalho até mesmo dos regionais. Eles simplesmente não tinham trazido roupas para as temperaturas previstas – e houvera recomendações a respeito.
Fator importante de conforto ou falta dele, é o deslocamento de ar, o vento. Embora as médias e extremos de temperaturas de locais na parte sul do país sejam semelhantes, a proximidade dos campos e dos pampas permite a chegada de ventos polares – que atravessam qualquer tipo de roupa, por mais espessa e fechada que seja.
O calor de algumas cidades pode não ser tão intenso quanto parece – notadamente, as de fundo de baía. Mas a ausência de vento, uma simples brisa marinha que seja, o faz insuportável. Ou, ao contrário: com um calorão senegalesco, a presença de vento o torna agradável. Exemplo clássico, os ventos alísios em algumas capitais litorâneas do nordeste.
“A coisa” não é tão simples quanto essas considerações podem levar a pensar: quem esteve no frio de verdade, sabe que não há muita diferença entre 4º positivos ou negativos. Pra saber quanto frio está fazendo, é preciso olhar nos termômetros.
Temos uma catástrofe que se aproxima a passos largos, o aquecimento global. Diariamente, são noticiados ciclones, inundações, estiagens e mais danos irreversíveis. O planeta está nos devolvendo o desconforto que causamos com nossa irracionalidade.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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