Home Colunistas Crônicas da vida urbana “No News, good News”

“No News, good News”

De uns tempos a esta parte, este velho provérbio bretão fica mais verdadeiro a cada dia que passa.
Aquela famosa leitura do jornal pela manhã, durante o desjejum, tão citada no cinema e nas histórias em quadrinhos, é uma garantia de mau-humor para o dia inteiro. Ou, pra quem tem estômago mais sensível, já vai sair de casa para trabalhar com a refeição entalada na garganta.
E no entanto, supondo que você tenha intenção de se alienar da barbárie cotidiana e não leia o jornal diário nem a revista semanal, isso de nada adianta. Basta abrir o e-mail para que despenquem sobre a cabeça do cidadão indefeso péssimas notícias: variando entre aumento de impostos, agravamento da burocracia que emperra o país, até inflação, acidentes de trânsito, assaltos e tudo o mais que faz as concepções tradicionais medievais de inferno parecerem brincadeirinha. Nesses antigos infernos, havia apenas um diabo-chefe e alguns diabretes com seus tridentes: nós temos uma inteira classe política, com milhares de demônios ocupados incansavelmente em atormentar nossa passagem por esse “vale de lágrimas”.
Na hora do almoço, a gente vai ser obrigado a encarar a TV do restaurante ligada no noticiário – e lá vêm mais notícias sobre as políticas governamentais pra sacanear com a classe média. E, é claro, mais acidentes de trânsito, assaltos e outras alegrias da vida urbana. Com o quê, se você teve alguma alegria capaz de minimizar as angústias matinais, as vespertinas vão repor tua dose de estresse.
Não procure uma atividade noturna capaz de exorcizar o período diurno. Os cinemas vão passar filmes horrendos com banhos de sangue e a violência que você abominou durante todo o dia. Os shows de música e discotecas vão te bombardear com músicas de péssima qualidade, baixaria insuportável mesmo, e haverá débeis mentais pra dizer que são catárticas e saem com o volume dos carros no máximo da capacidade agressiva.
A mais inócua das distrações – um passeio a pé – será num cenário de horror, com paredes pixadas, moradores de rua e suas imundícies te agredindo – quando não roubando – sujeira pra todo lado, iluminação sistematicamente deficiente e nenhuma proteção por parte dos governos municipais estaduais e federais que te esfolaram e baixam a qualidade da vida familiar prometendo segurança.
Se você encontrar uns amigos num boteco pra jogar conversa fora, não se iluda: o que vai se comentar são exatamente aqueles fatos que te atazanaram durante o dia – e que, é muito provável, estejam sendo repetidos em alto volume em mais uma TV ligada em lugar bem visível. Ou uma novela tentando te explicar subliminarmente que tudo isso está certo, é assim mesmo que tem que ser.
E pode esperar pelo próximo noticiário: tudo vai piorar.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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