Mutatis mutandis

Vemos acontecer todo santo dia, o que não significa que seja possível acostumar. Diante de uma casa, surgem altos tapumes. Ficam ali muito tempo, sai terra e madeira, entram concreto e outros materiais. Enquanto isso, vândalos pixam, maloqueiros arrombam para defecar e urinar, empestando as imediações.
Quando os tapumes são retirados – sumiu a casa, sumiram os jardins e as árvores. Está tudo impermeabilizado, e a casa foi maquiada com uma aparência tumular: granito e letras metálicas anunciando uma clínica ou escritório. Vidros fumê, é claro, e caixas de ar condicionado para compensar o “efeito estufa”. Quando não o grande palco da sociabilidade contemporânea, um boteco.
Até aí já temos quatro incorreções ambientais: chão impermeável, desoxigenação, gasto de energia excessivo e agressão à vizinhança.
Mas continua: logo logo, as imediações estarão apinhadas de carros, infernizando os moradores com tráfego incompatível com áreas residenciais, bloqueamento da entrada das garagens das casas, ruído muito acima da decibelagem razoável, trepidação causada pelos veículos pesados, alta velocidade, multiplicação das motos, pó insalubre e todo o cortejo de inconvenientes e agressões do trânsito e da arrogância carrista.
Já escutei uma técnica em urbanismo dizer publicamente que “monofuncionalismo não funciona”, axioma dos mais infames: quem passou pela situação acima sabe da farsa que é, encomendada e patrocinada pelos imobiliaristas e partidários do caos nas cidades. Claro que a afirmação se baseia na conivência e conveniência do poder público, para o qual só o que funciona é o aumento de arrecadação, e do poder do capital, sugando e sobrecarregando estruturas lançadas para baixa densidade.
E tem mais: a (des)construção vai continuar seu processo. Com muita frequência, funcionará por uns meses – e logo irá se mostrar sem funcionalidade e nova reforma será praticada. É todo um ciclo de falta de noção: o lugar não era adequado à função que lhe foi atribuída, que o fracasso de público vai atestar.
Evidente que estamos no Brasil, e quem leva o prejuízo maior é sempre a cultura urbana, não só com a descaracterização de uma edificação que irá ensejar o mesmo empobrecimento para a rua, para as ruas adjacentes e o bairro – evidente que, mais adiante, de toda a cidade.
Há quem veja aí sinal de vitalidade econômica, mas vejo antes o inverso: instabilidade, imprevisão, incompetência das autoridades. Se fosse um sinal positivo, tudo funcionaria sem necessidade de tanto desperdício de recursos – que irá pesar na extração de recursos naturais, sobrecarga nas estruturas da cidade e desvirtuamento patrimonial da arquitetura.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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