Medo do escuro

“A mãe do medo é a incerteza, e o pai do medo é o escuro. Enquanto houver escuro no mundo, haverá medo. E enquanto houver medo, haverá monstros.”
A discussão de Pedrinho com o Saci é um dos grandes momentos lobatianos – que arriscamos perder nas águas poluídas de obscurantismo do “politicamente correto”.
Todos os seres imaginários – os do mal, principalmente – que desfilam em “O Saci”, não precisam de altas (nem baixas…) psicologias para serem explicados como originários do medo. Medos do escuro, de uma população ainda iminentemente rural, que depois de jantar aguardava a hora de dormir nas varandas de frente para o mato – cheios de ruídos, de sombras desconhecidas (ou pelo menos não identificáveis) à luz do lampião a querosene.
Até que ponto os contadores de histórias que pontificavam nessas fazendas e sítios acreditavam em suas narrativas, é difícil avaliar, como também nos causos e proezas que faziam parte de seus repertórios. Era a literatura de então, oral evidente, sempre se leu pouco no país, mas muito se escutava. Como há quem acredite em tudo o que lê – por exemplo, nas ditas redes sociais – também havia quem acreditasse em tudo o que escutava…
Explicando a origem dos mitos, Lobato literalmente “lança luz” sobre eles – e iluminando, torna os monstros menos assustadores. E no entanto, não os priva de seus encantos literários: o Saci resulta num personagem simpático, amigo, interessante.
Mas se hoje ninguém mais acredita ou receia sacis, lobisomens e boitatás – porque ainda é tão manifesto nosso medo do escuro, em cidades – e agora sim, vamos tentar acreditar num mito – civilizadas, iluminadas, desmatadas – cheias de tecnologias que há poucos anos assustariam um vivente que, como nós, as viu surgir e tomar conta do planeta?!
Quem tem a felicidade, cada vez mais rara, de morar numa casa, e ainda mais privilegiada com uma varanda, não tem diante de si um mato escuro e misterioso – mas uma rua urbana, onde tudo é perfeitamente conhecido. O escuro é só lá no alto, na noite sem estrelas.
É que no processo civilizador das nossas urbes, criamos outros tantos monstros. Não há mais cucas, lobisomens, boitatás – em compensação, estamos bem servidos de assaltantes, ladrões, maníacos, vândalos, pixadores, e outros. Tudo sobre o fundo de escuridão cultural do neoliberalismo, mas esse é outro assunto, bem mais espinhoso…
Por mim, prefiro os até cordiais e inofensivos monstrinhos rurais de antigamente…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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