Mar de nuvens

Há muito tempo – caramba, como faz tempo! – eu escutava montanhistas – meu pai e seus companheiros de escaladas – afirmarem que o maior prazer de subir morros e serras, e que compensava largamente o esforço, era contemplar o “mar de nuvens” por cima – ou mesmo, de dentro dele.
Vamos relativizar: nessa época, as viagens de avião eram muito raras, e acho que a maioria desses escaladores nunca entrou num Paulistinha (chamado Teco-teco) e muito menos, num Airbus que voa a 10 quilômetros do chão, bem acima de quase todas as nuvens.
No entanto, as fotos que fizeram – em excelente preto-e-branco – mostram que o tal “mar de nuvens” tem particularidades que só mesmo suando para subir se presencia. Ou talvez em pequenos aviões, voando a altitudes menos estratosféricas, proporcionem visuais semelhantes – mas sem o majestoso silêncio que os excursionistas têm o privilégio de escutar.
A Serra do Mar – era, por sua proximidade com as cidades do Primeiro Planalto – privilegiada nos fins de semana do pessoal, o cenário esplendoroso que ainda é. Isso graças aos esforços pela sua preservação de uns poucos, que peitam os interesses capitalistas acobertados pelos governos. Gente que, por suas contas bancárias nos paraísos fiscais, quer fazer da região uma Minas Gerais desmatada, extraindo, explorando e detonando, construindo por toda parte aqueles infectos reservatórios de resíduos cujas barragens, mais dia menos dia, causam catástrofes ambientais e sociais.
Mas voltemos ao “mar de nuvens” dos antigos marumbinistas, antes que a indignação leve a crônica por outros caminhos. O que se percebe claramente nas fotos é o caráter de “muralha climática” da Serra. Ela represa as nuvens que fazem o percurso litoral/planalto e vice-versa. Entre os picos mais altos, passam os esgarçados brancos que espraiam, numa e noutra direção, como ondas chegando à praia.
Mesmo nas nossas cidades litorâneas, se já chegaram a uma dada dimensão, é difícil perceber os encantos do “mar de nuvens” que fazia as delícias dos antigos montanhistas: o deletério “mar de concreto” das nossas urbes é a Grande Muralha da China que nos separa das nuvens, do céu, da natureza.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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