Home Colunistas Crônicas da vida urbana Lugares escuros e perigosos…

Lugares escuros e perigosos…

Acho que é alguma coisa que herdamos do nosso passado de pitecantropos – o medo do escuro. O cérebro dos nossos ancestrais, com toda probabilidade, era mais escuro que as noites primevas – e em nada ajudavam os rugidos e sons incompreensíveis na distância. Ou pior, na proximidade… Só havia dois confortos possíveis: a fogueira, que complementarmente dava calor, e o tacape ao lado. Não admira que, quanto mais distantes no tempo, mais rudes eram os cultos: a todo custo, as entidades sobrenaturais deviam ser agradadas em troca de proteção…
As cidades, quando começamos a construí-las, acrescentavam mais alguns itens. Antes de mais nada, sua presença por si só afastava as ameaças animais – mas atraía outras mais perigosas, a dos grupos humanos concorrentes. No entanto, o aglomerado de gente e as relações entre as pessoas representavam senão mais segurança, uma sensação de força grupal, mais apta a enfrentamentos que as pequenas e isoladas tribos de hominídeos.
Mas nem todos os humanos moram em cidades, isso é coisa recente: sempre há os isolados em áreas de baixa densidade. Para esses, o medo do escuro adquire outras conotações: entidades malignas, à espreita de quem se afasta da claridade… e que, o mais das vezes, apenas configuram nossa incompreensão do escuro.
Vamos reconhecer que essa gente é feita de material diferente. Ou não?! Será mais difícil morar numa isbá perdida em estepe russa, numa log cabin no Saskatchewan, numa casa de seringueiro no Amazonas? Haveria a enfrentar ursos, cobras e mosquitos – mas seria pior que o nosso medo de sair de nossas casas à noite e enfrentar nossos semelhantes, armados principalmente de más intenções? A não ser com a ligação automobilística garagem-shopping-garagem, quem sai da toca no escuro da madrugada com tranqüilidade, sem medinho nenhum?!
Inverteu-se a situação: o macaco pelado, medroso, quase incompetente para sobreviver, é o terror dos outros animais – principalmente até, de seus semelhantes. Os animais chegam à cidade em casos de extrema necessidade, por terem seu ambiente violentado, agredido e esterilizado pela presença humana. Acho que esses seres – volta e meia um vira notícia de jornal – se aproximam das cidades com um terror maior que os pitecos sentiam quando tinham que se afastar da fogueira para fazer um xixi no mato…
Não fazemos mais fogueiras para espantar o medo, agora exigimos das autoridades iluminação abundante e policiamento.
Mas os cantos urbanos escuros e isolados, que permanecem abandonados, em vez de nos oferecerem o conforto de um lugar à margem do tumulto urbano, nos causam mais medo que se houvesse um tiranossauro à espreita na sombra – ou uma mula-sem-cabeça. Ou, pior ainda, um assaltante.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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