Janela indiscreta

O famoso e genial filme de Hitchcock deve ter sido sugerido ao diretor pelo processo de verticalização e adensamento das cidades, na época ainda restrito a um punhado de urbes pelo planeta. Quem mora ou morou em áreas verticalizadas, muito empilhadas, sabe que “o preço da privacidade é o constante sobressalto”…
No entanto, esse tipo de preocupação já foi desnecessário mesmo nas áreas urbanas centrais das cidades. Um passeio pelas ruas de cidades que tiveram a felicidade de preservar logradouros com as características de há apenas um século ou pouco mais, será suficiente para essa constatação.
As janelas das casas são na altura dos olhos dos passantes, e mantidas saudavelmente abertas. Pouca gente passa nas ruas, e quem passa não está interessado em olhar para o interior das casas: e quem nelas mora pouco se incomoda com olhares externos. Para a privacidade, há as alcovas – palavra que se tornou sinônima: “segredo de alcova”. Mas percebe-se que não há real preocupação em ocultar a cotidianidade, tanto que as portas também são deixadas cordialmente abertas e, lá no fundo, a movimentação das pessoas é sem traumas, despreocupada.
Ao adensamento das cidades, corresponde a elevação das portas e janelas em relação ao nível da rua – e, paradoxalmente, ao desejo de exibir os interiores. Como o personagem de Machado, abrindo janelas e cortinas para alardear a riqueza da decoração.
Já os edifícios correspondem, como é obvio, à fase moderna de crescimento descontrolado das populações urbanas: falta chão, é preciso empilhar as casas. E a privacidade, considerada apenas a rua, se torna controversa, contraditória e (des)controlada. Se, por um lado, é preciso muita atenção para se resguardar, por outro a impessoalidade urbana gera uma necessidade de interação que tangencia, facilmente, o doentio. Vai para as redes sociais, muito mais intenso e grave do que o alardear a decoração, como o Carlos Maria machadiano.
No entanto, na modernidade a maioria das janelas é muito discreta, ou há recursos para que sejam apenas componentes visuais das fachadas: a climatização dos interiores faz delas pouco mais que quadros hiper-realistas. A permeabilidade visual cada vez cede mais espaço às imagens digitais das “três telinhas”.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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