Frio, neve e geada

Já estive em regiões tradicionalmente geladas do planeta – Canadá e Romênia – e nunca vi nelas um mísero floco de neve… Quer dizer, passei frio sem o correspondente privilégio paisagístico. Num desses paradoxos meteorológico-espaciais, a única neve que vi foi em minha própria cidade, em 1975: bastou olhar pela janela…Já estive em regiões tradicionalmente geladas do planeta – Canadá e Romênia – e nunca vi nelas um mísero floco de neve… Quer dizer, passei frio sem o correspondente privilégio paisagístico. Num desses paradoxos meteorológico-espaciais, a única neve que vi foi em minha própria cidade, em 1975: bastou olhar pela janela…

Bom, quem conhece a neve conta que a compensação é mesmo só visual – quando neva muito, é um desastre. E, quando degela, é terrivelmente nojenta, fica tudo melado, enlameado.

Serão, é claro, sensações urbanas – mas, mesmo sem a conhecer, acho que a geada deve ser pior, no sentido de mais fria.

Atualmente, são raras, nas áreas urbanas – o calor concentrado por vários fatores, faz com que o fenômeno não se apresente mais com a frequência de há algumas poucas décadas. Primeira consequência, não damos mais conta dos bichinhos, hematófagos ou xilófagos, que nos infernizam as noites e os dias.

O primeiro sinal de que a geada se formaria, era a noite da véspera: aquele céu estrelado do hino – “nosso céu tem mais estrelas” – onde eram nítidas as constelações e até mesmo se entendia o que era a concentração chamada “Via Láctea”. Duvido que alguém ainda saiba, fora do ambiente astronômico. No fumacê dos nossos céus urbanos atuais, meia dúzia de corpos celestes não dizem coisa com coisa.

A iminência da geada requeria providências das crianças: colocar pano molhado no gramado e algumas vasilhas rasas com água ao relento. Ao amanhecer, os tecidos estariam rígidos como folhas de papelão e na superfície da água, uma fina camada de gelo, a ser degustada como o melhor sorvete. Havia também o gostinho de ir pra aula de manhã pisando nos gramados das praças – o orvalho congelado ficava crocante. Apesar de que molhava os sapatos, penetrava no couro e nas meias e o resultado de uma manhã inteira com os pés molhados, poderia ser a chatice de um resfriado. Facilmente curado com um chá muito quente de limão e mel.

As atuais japonas de nylon impermeável e acolchoadas com grossa camada interna, também não estavam no comércio, a solução era multiplicar as camadas sobre o corpo: camiseta, camisa, colete e blusa de lã de ovelha – talvez duas… E, finalmente, o sobretudo, muito grosso. Tudo isso imobilizava um pouco, dificultava os movimentos. Contribuíam para o “engessamento” a ceroula sob a calça, as malfadadas meias de lã e o “chapéu de leiteiro”, com abas que desciam para proteger as orelhas. Foram substituídos pelas atuais “chocadeiras de piolho”, mais coloridas mas certamente menos eficientes… Luvas eram de lei, mas não dava para escrever na aula com elas.

Não duvido que nossos atuais guarda-roupas urbanos sejam mais eficientes e mais confortáveis. E, também, acho uma idiotice sem tamanho negar o aquecimento global.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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