Frio & calor

Poderia ser mania de reclamar – é uma epidemia, nunca vi tanta gente reclamando de tanta coisa. A atitude saudosista que apela para o “tudo está cada vez pior” – enquanto o oposto otimista consegue apenas perguntar “até onde vai tudo isso?” Na verdade, essa é mais ruim como atitude. Para os primeiros, há um processo de piora – mas para os segundos, há uma incógnita: vai só até um certo ponto, mas ainda não há luz no fim do túnel.
O clima é sem dúvida o campeão das reclamações: se a latitude do Trópico de Capricórnio sempre foi complicada do ponto de vista meteorológico, agora passamos por uma radicalização de esquisitices.
É mais do que evidente que os cientistas que inventam fenômenos transitórios tipo “El Niño” e “La Niña” estão a serviço dos loucos que nos querem fazer acreditar que isso é uma exceção a uma normalidade centenária e/ou milenar. Que é uma fatalidade sem responsabilidade humana, uma glaciação ao contrário. Aquecimento global, derretimento das calotas polares, buraco na camada de ozônio – calma gente, nada de nervoso, tá tudo bem. Tipo, vocês sabem, o carinha do topete e seus seguidores. E que é só ter um pouco de paciência, logo passa e fica tudo maravilhoso, uma eterna primavera, temperaturas amenas, chuvas fertilizantes, ventos alísios e brisas refrescantes.
Ressalve-se que vivemos um tempo no qual é melhor não ter certezas: o filósofo que afirmou ser “a certeza uma posição fácil demais para que nela se permaneça”, deve estar se rebolando de felicidade no túmulo. As contradições, informações e contra-informações, falsas notícias e desmentidos: onde se pode fazer um ponto referencial a partir do qual estar certo? Antigamente, a certeza absoluta já era coisa de estatística, agora nem isso.
Não vamos nem pensar em entrar na área conturbada da política: seguindo uma tendência muito entranhada, temos o vício de discutir política como se fosse futebol. Naquelas conversas de boteco, ainda há quem dê soco na mesa e berre suas convicções partidárias: e mesmo que não grite, outro filósofo disse que “os gritos são as razões de quem não as tem”…
Temos que nos precaver ao emitir opinião, seja qual for o assunto, relativizar ao máximo: “ao que tudo indica”, “na minha restrita perspectiva”, “até onde sei”… Não só pelo receio do confronto com algum adversário agressivo mas, e principalmente, pelo receio de no dia seguinte ter que engolir a certeza da véspera.
E tem mais: essa mudança repentina do frio ao calor enerva, leva ao radicalismo, à irascibilidade, ao nervosismo estressante…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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