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Folhinhas e calendários…

… e almanaques, e agendas… como os relógios, são instrumentos para melhorar o convívio com essa entidade odiosa, o Tempo…
Não me venham com conversa de “melhor idade”, “idade da razão” e similares. É tudo captação de mercado, segmentos de consumo: “velhos, venham gastar!” Envelhecer é o processo de morrer tornado mais penoso – tanto que pode-se optar até pela criogenia mas, ao que eu saiba, é tudo a nível de especulação.
Desculpem essa introdução – filosofia de boteco – pessimista a um tema que, no fundo, é uma faceta interessante da vida urbana, mencionado nas primeiras linhas.
O calendário como peça de publicidade tem resistido bravamente ao passar das décadas: há tempos, os suíços eram famosos, com suas paisagens alpinas. Talvez porque o clima por lá favorece a longevidade?! Mas a mensagem da peça gráfica, deixando de ser apenas comercial, adquirindo conotação cultural, é ainda comum no Japão (é o exemplo que conheço, deve existir em outros lugares). Não esqueçamos os “calendários de borracharia”, que tiveram seu apogeu antes do surgimento das revistas masculinas. Sua formulação mais conhecida são os “Calendários Pirelli”, com pin-ups fotografadas ou desenhadas, disputados a tapa por colecionadores e que, por enquanto só ouço dizer, estão ou estarão de volta…
Um conhecido livreiro da cidade, todo início de ano perguntava:
_ Já ganhou a folhinha da casa?
Quando o freguês negava – acho que nunca mandou imprimir um calendário de verdade… – ia aos fundos da loja e trazia uma folha de hera – que entregava com seriedade, ainda que a gente lembrasse que a piada era a mesma havia décadas.
Minha avó açoriana, que tinha dificuldades de locomoção, insistia para que eu percorresse o comércio até que lhe encontrasse um calendário para o ano entrante: mas exigia que fosse daqueles de tirar uma folhinha – acho que daí o nome popular – ao dia. Além das informações normais de dia do mês e da semana, lua, recomendações para o jardim, dizia quem eram os santos do dia, explicava algum feriado ou dia santificado e outras matérias históricas que, a bem da verdade, enriqueciam a cotidianidade. Atualmente há ainda os “dia da banana”, “dia do motorista”, “dia de qualquer coisa”: evidente que tudo com objetivo comercial. Claro que herdei mais essa mania, agora facilitada porque esse tipo de calendário é vendido.
Mas como eu dizia, são instrumentos de convívio com o tempo. Pessoalmente, preciso de toda essa parafernália – calendários, almanaques (a Livraria Bertrand mantém a edição há mais de século, Machado já os menciona), agendas e relógios por toda parte (inclusive no pulso, graças ao Santos Dumont) para me situar no tempo e não ser atropelado por ele. O que acaba acontecendo, evidente – tanto que, em algumas semanas, atraso o envio da crônica para o DIARINHO.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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