Ficando em casa

É assustador como, ao mínimo sinal de flexibilização da quarentena devida ao vírus chinês, as pessoas se jogam para as ruas comerciais, parques, praças, baladas – enfim, atividades não vitais.

Em parte, pode-se atribuir à irresponsabilidade e arrogância brasileiras – “essas regras não são para mim”, como se vê no trânsito, independente de pandemias.

Outra parte, à confusão gerada pela controvérsia entre estâncias governamentais e imprensa. Recebi um filme no qual se conta como “a coisa” foi encarada na Alemanha: seguiu-se o trajeto da contaminação até sua chegada ao país, monitorando todas as possibilidades de expansão do contágio. Em nenhum momento há interferência política: a pesquisa é dirigida e conduzida por técnicos, médicos e quem mais entende da coisa.

Dona Angela Merkel fica cuidando do euro, que é o serviço dela e é o que ela sabe fazer.

Percebe-se na atitude brasileira de “não tô nem aí com essa gripezinha” a desinformação causada pelas contradições nas informações, num país onde não há educação suficiente para as pessoas avaliarem e decidirem o que mais convém não apenas a elas, mas à sociedade como um todo. Tenho que insistir mais uma vez que todos os problemas brasileiros têm origem na sacaneada educação?

Evidente que haverá uma piora na crise econômica já em curso antes da doença chegar. Já escutei que vai dar pra se arrepender de não ter sido apanhado pelo vírus, mas isso é mais idiota ainda: num país há 520 anos se debatendo de uma crise para outra, algum jeito se dará. Ou, como diria minha avó, com um conformismo de quem viveu boa parte desses cinco e tantos séculos de crises, “o que não tem remédio, remediado está”.

Nada disso impede ser incompreensível a atitude de que “já que não tem trabalho mesmo, vou é festar”. Como é incompreensível a atitude de estimular as pessoas a saírem sem que ainda haja segurança para tal. Claro, a economia se ressente da falta dos consumidores mais prudentes – mas será que não é mais evidente que gente morta consome menos ainda?!

Em algum lugar, o dinheiro que estava em circulação quando se tornou claro que quarentena e isolamento são as melhores armas para conter o vírus – ficou represado. Não evaporou, não foi sequestrado como nos desastrosos planos econômicos piores que qualquer peste. E esse dinheiro, segundo as bases capitalistas, tem que circular para gerar mais dinheiro: é a lógica do sistema, nenhuma pandemia, por enquanto, vai mudar isso.

Estabelecer regras para que esse processo seja o menos doloroso possível – e para todas as faixas de população, nada dessa demagogia barata de “tem gente ganhando normal, vamos tirar deles para dar aos que não estão normais”, um tipo Robin Hood de mau caráter.

E finalmente, é para enfrentar situações difíceis que existem os governos. É onde mostram sua competência e liderança. Esses sim, vírus que gostaríamos de ver alastrar na política brasileira.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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