Estresse digital

Gente, na minha idade, tem que se cuidar: de repente, se flagra implicando com a modernidade porque não pode acompanhá-la. Sou da geração em que os Beatles eram considerados o fim da civilização – e foram incorporados a ela com a maior facilidade. Nós os considerávamos como a saudável renovação do ambiente cultural – acompanhados pela popularização dos equipamentos sonoros, discos de vinil, fitas K7, e o restante. Sentíamos nos “coroas” uma má vontade, mais que discordância, com os rumos da cultura jovem.
Com essa preocupação, fiz duas listinhas do que me incomoda na Era Digital – vocês vejam aí se é implicância ou realmente são desconfortos e vantagens.
Claro que meu inimigo preferido são os celulares, principalmente a partir do momento em que se tornam obrigatórios: há cadastros que não “fecham” com um número de telefone fixo. Em algumas cidades vão ser instalados parquímetros que só podem ser acionados pelo celular: se você não tem um, não pode parar seu carro na rua. Motoristas empacam o trânsito por estarem ao celular; e pessoas são atropeladas por atravessarem a rua distraídas por ele. Uma barbárie muito comum é a gente estar falando com uma pessoa, ela atende ao telefone e te deixa plantado feito bobo. Estudantes interrompem a aula com chamadas, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Nos restaurantes e nas ruas, há quem grite ao telefone para chamar atenção para a própria imbecilidade. Em toda parte, há aquelas telinhas brilhando na cara de quem quer assistir a um espetáculo: parece que as pessoas só sabem apreciar alguma coisa se a filmarem para ver em casa. Vi num dos maiores museus do mundo, um grupo que entrou na sala em que estava a Venus de Boticelli. Se auto- fotografaram (selfie, né?) diante do quadro, fotografaram a plaquinha com as informações e saíram da sala – sem ter olhado, sequer de lado, para o quadro.
As redes sociais, associadas ao celular, têm seu poder potencializado. Todos sabemos que a bandidagem não está nem aí com ser presa: dentro do presídio estão protegidos das facções inimigas e continuam a “trabalhar” com os celulares. Recentemente nos noticiários foi apresentado um ladrão digital: o cara nadava em dinheiro como um sheik do petróleo ou imobiliarista empreendedor.
Já perdi concerto da orquestra da universidade porque os ingressos só eram vendidos pelo facebook, e me recuso a me matricular nessa usina de fofocas e fakenews, onde se perde o referencial da realidade muito fácil. Sei que há outros eventos assim: a tendência é que seja mais uma pressão obrigando ao uso do celular.
Semana que vem, meus argumentos a favor da Era Digital. Não estranhem, por favor, se o espaço da coluna estiver em branco…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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