Estorvo urbano

No balcão da mercearia, várias pessoas fazendo suas boquinhas de meio da manhã. Uma delas, uma bonita e bem arrumada moça – sem consumir coisa alguma, só teclando no celular. Tomei meu expresso, comi o pão de queijo e fui ao caixa pagar. Escutei a moça comentando com a atendente: – Puxa, não tenho nada pra fazer… Eu moro com minha mãe e meu irmão, a mãe trabalha mas ele não – então se paro em casa, a gente só fica brigando, não tenho vontade de voltar prá lá…
A gerente do banco me estendeu o papel que eu pedira, e comentou:
– Que bom, atender e resolver assim rapidinho… Hoje é segunda-feira, o expediente é difícil…
– É, tem uma senhora que, quando a vejo falando com você, vou embora, a menos que seja emergencial.
– Ah, é a Dona Fulaninha. E o pior de tudo é que vem aqui com muita frequência, precisaria um gerente especial só pra ela.
O rapagão chegou à mesa da gerente, colocou e abriu seu notebook, ao lado o celular e passou a resolver seus negócios. Tinha o desplante de dizer em voz alta:
– Agora vamos esperar a resposta deles.
As pessoas na espera se entreolhavam, entre irritadas e desanimadas.
A senhora subiu ao ônibus, chegou à catraca. Parou, calmamente despendurou e abriu a bolsa, tirou a carteira, escolheu umas moedas, pagou. Discutiu o troco – estava certo – guardou a carteira, fechou a bolsa, pendurou-a no ombro, passou a catraca e ficou parada, observando o interior do coletivo, escolhendo lugar. Quando rodei forte a catraca para passar – mas sem encostar nela – para que se tocasse de que não estava sozinha no veículo, me olhou com cara feia:
– Tá com pressa, é?! Vai tirar o pai da forca?!
O casal de rapazes na mesa do restaurante, o garçom anotando o pedido. Um escolheu sem maiores delongas, apenas optou por um prato do cardápio, mas o outro era cheio das exigências:
– Quero os medalhões cortados bem finos, mas não passados demais. Com bastante molho, mas traga separado pra não fazer papa com o arroz. Mande não economizar no vinho madeira. As fritas mal passadas, senão ficam duras. A salada também à parte, pra não cozinhar a alface. E que venha bem quente. Quero pão pra aproveitar bem o molho… (etc.)
Esses casos, e muitíssimos outros da mesma natureza, de desrespeito aos profissionais de atendimento, às pessoas a serem atendidas e ao funcionamento das instituições como um todo, lembram o velho axioma latino: labor omnia improbus vincit. Ou então aquela música do Chico Buarque, que ninguém mais canta: “Vai trabalhar, vagabundo!”

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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