Entardecer no jardim

Ainda que pequeno, poucos metros quadrados, não entendo vida – principalmente urbana – sem jardim. Donde minha defesa acirrada das casas, sobre a vida de apartamento – onde a dependência das “três telinhas” se torna inevitável. E as complicações mentais decorrentes, escondidas cuidadosamente pelos interessados.
No entanto, mesmo que cercado de muros, alarmes, câmeras, um pedaço de chão para cuidar torna a vida urbana menos árida. Há quem prefira – por preguiça ou deformação cultural imposta – contratar jardineiro. Pois é: tem uma terapia natural, perfeita, eficiente à disposição e prefere se alugar com facebook e similares. Depois, evidente, terá necessidade de analista, academia, soníferos e outras compensações.
Tempo permitindo – o meteorológico e o cronométrico – meus fins de tarde são no jardim: uma, duas, ou três horas, o que a idade permitir sem maiores problemas além de um agradável cansaço, portador de bem-estar e bom sono.
Embora no depósito estejam as máquinas facilitadoras, nunca as uso. Não gosto delas, do resultado mecanicamente homogêneo que produzem e, menos ainda, do ruído agressivo. Porque a jardinagem profissional tornou-se uma infernização num grande raio: roçadeiras, motosserras e, principalmente, esse absurdo que são os “tubos sopradores” que se usam no lugar das antigas vassouras, feitas a partir dos próprios galhos podados.
Então, banquinho e tesoura de poda são mais cordiais com o ambiente, tanto para aparar o gramado quanto para retirada das ervas indesejadas. O tec-tec contínuo não ofende ninguém, nem mesmo os passarinhos, sempre alertas ao que estou fazendo de onde pode resultar a descoberta de bichinhos ou outros itens alimentares. A mesma técnica vale para as heras, para galhos mais grossos o alicate de poda resolve.
O resultado das podas é acumulado num canto pouco visível do próprio jardim – é o que chamamos “fábrica de terra”, a ser usada em canteiros, vasos e horta.
Meu horário preferido é o fim da tarde: sombras, calor menos forte, brisa agradável. E, sempre, a companhia das aves, que fornecem um fundo sonoro – sempre me esforço para entender o que dizem, e algumas vezes, até consigo.
Agora que, idiotamente, suprimiu-se o “horário de verão”, as tardes ficam mais curtas – e as atividades ao ar livre ficam reduzidas – a jardinagem rende menos. De qualquer forma, em tempos de estiagem há possibilidade de regar plantas, não exige muita acuidade visual, no escuro.
O sinal do fim do expediente é o sino da igreja próxima: sempre gostei de sinos e assim, sinalizando o início da noite, são mais românticos, tranquilizantes, musicais. Os sons são escutados pelos cães – que se agrupam na escadinha, é a hora da conversa diária com calma e agrados de parte a parte. Todos olhamos na direção do sino – que, temos essa felicidade, vem por trás da silhueta das araucárias, com suas cúpulas douradas, sua sombra protetora e incomparavelmente bela.
O alarido dos passarinhos cessou, cortam os ares azul-escuro os assobios e o esvoaçar dos morcegos. É hora de guardar ferramentas e de se preparar para a noite.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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