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Enchentes e inundações

… são por aqui o inverso da situação em outros lugares: em Portugal e na Austrália, incêndios devastadores. Se bem que, em matéria de queima de florestas, também ninguém nos ganha…
Não dá pra saber o que é mais dramático: particularmente, acho que ainda não há tragédia pior que as estiagens prolongadas e as secas. Nessas, é a morte lenta, que avança inexoravelmente, matando devagar, num processo horrendo de drenagem da vitalidade, gente, animais e plantas: desertificação explícita e irrefreável.
Mas dá o que pensar termos cada vez mais esses aguaceiros furiosos de verão que, principalmente nas cidades, destroem inexoravelmente. São principalmente as capitais que sofrem com isso – e, convenhamos, estão entre as maiores culpadas pelas alterações climáticas, que alguns cegos – do pior tipo, aqueles que não querem ver – dizem não existir.
É bem verdade que não são só as grandes cidades a sofrer com o despautério climático: eles detonam também pequenas cidades e áreas rurais, mas a metrópole, com sua concentração de calor, emissão de gases e superpopulação estão na origem das catástrofes.
Que, no momento em que acontecem, são visualmente valorizadas pela mídia, comovem, assustam. Mas tornaram-se tão frequentes que já quase banalizaram. Quem como eu apenas passa diante da TV volta e meia, fica pensando: “onde será que foi dessa vez? Sampa, Beagá, Rio de Janeiro?” Independente da localização geográfica, causam aquela preocupação instantânea e no dia seguinte é superada por outra.
O que mais preocupa é não se ver ações efetivas por parte das prefeituras no sentido de amenizar a calamidade anual previsível. Não conheço programas sérios – isto é, extensos e intensos – como desenterrar rios. Ou relativizar áreas impermeáveis: coisas simples, que não são soluções mas partes dela, como aumentar a área de canteiros nas calçadas, as áreas dos parques e das praças, proibir estacionamentos cobertos e/ou pavimentados. Ou aumentar os escoamentos de águas pluviais, levar a sério a quantidade de terreno que se pode impermeabilizar quando se aprova um novo projeto. Ou… enfim, tem uma pá de coisas que poderiam ser feitas. Nenhuma resolve o problema da concentração da água – mesmo porque os aguaceiros tendem a ser cada vez mais frequentes e mais fortes, mas podem ajudar a amenizar. Não só poderiam como deveriam, sob pena de agravamento da atual situação.
Entende-se que as cidades, em especial as maiores, têm uma problemática difícil até mesmo de equacionar. Mas sempre, decorrente da urbanização descontrolada e estimulada pelas leis de mercado.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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