Home Colunistas Crônicas da vida urbana …E o futuro, ah, o futuro está longe…

…E o futuro, ah, o futuro está longe…

Não há como negar que a vida urbana sofreu um aumento monumental de atrativos públicos. Se por um lado, algumas atividades foram reduzidas ao quase desaparecimento, outras surgiram – se não em substituição, pelo menos como compensação. Há mais interação? Não sei, acho difícil avaliar: há um aumento assustador de ações anti-sociais, agressivas e difíceis de aceitar como comportamentos civilizados.
A quantidade de espetáculos musicais, por exemplo, parece-me que só faz crescer – e para públicos cada vez mais numerosos. As reportagens mostram multidões que, não há muito, só o futebol concentrava. E – sempre em observação não-participante – os eventos esportivos são bem menos concorridos, salvo situações excepcionais. Mas que interação acontece nessas ocasiões? Na entrada e na saída, gente sai apressada, muito diferente de, por exemplo, cinemas, teatros e concertos de há poucas décadas. Eram mais raros, mas degustados com mais prazer e menos adrenalina. Sinal dos tempos, é claro…
Botecos, bares e restaurantes são super-abundantes, superlotados (quando conseguem estar na moda, isto é, dentro de uma faixa de gosto médio) e neles, acredito que aconteçam as relações que abandonaram as ruas por medo de criminalidade. Não vamos considerar os shoppings, onde ao lado do alegado conforto – estacionamento, ar condicionado, seguranças – a sensação de viver numa realidade paralela e provisória está sempre presente.
A consideração que me parece mais inevitável é a relação entre o espaço individual de residência e a vida “de rua”. Já foi uma insanidade do Le Corbusier – toda a cidade morando em células mínimas, claustrofóbicas e opressivas, verticalizadas ao extremo – mas com abundantes espaços públicos, onde se vive a maior parte da vida. Acho perigoso ao extremo: uma coletivização de tipo socialista radical autoritária, onde o indivíduo inexiste. É aceitar a sociedade dita “de massas”, e não há como isso não ter uma conotação desagradável de manipulação de manada, de rebanho onde os indivíduos não têm vontade própria e nem precisam dela…
Há poucas décadas, o “1984” de George Orwell parecia um pesadelo distante – tal como o “Ano 2000” era um futuro utópico para uma humanidade com seus problemas resolvidos.
A data de Orwell, virou um programa de TV cretino, onde o que o autor via como ameaça foi transformada em promessas midiáticas. É o preço da nossa pouca informação: duvido que algum dos milhões de usuários de telefonia celular tenha percebido o quanto está carregando uma “tele-tela” controladora, autoritária e despersonalizante no bolso.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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