Duas meninas e o tempo

Evidente que são narrativas diferentes em tudo: Chapeuzinho Vermelho é uma história talvez da Idade Média; Alice é de meados do XIX. Ao contrário da outra, tem autor conhecido. Mas é inevitável pensar nas relações das duas meninas com o tempo.
Chapeuzinho não tem pressões: está “à toa na vida” quando a mãe a manda levar vitualhas para a vovó; e vai passeando pelo bosque, colhendo flores, com a tranqüilidade de quem não tem tarefas escolares nem caseiras a cumprir…
Alice cai, literalmente, num buraco misterioso, onde o tempo – e todos os parâmetros convencionais – tem um desenvolvimento onírico. A primeira figura que lhe aparece é um coelho apressado, de olho no relógio, exclamando repetidamente “Vai ser tarde! Vai ser tarde!”
A cada tempo, suas histórias, é só saber ler.
Numa versão contemporânea – e há muitas, entre geniais e medíocres – Chapeuzinho iria pela floresta lendo e enviando whatsapps, e encontra o lobo que conhecia do facebook. Claro que no cantinho da tela, números digitais a informam quanto a dia, mês e hora para não atrasar no encontro adrede marcado.
E Alice, pra cair naquele buraco cheio de coisas esquisitas, pelo menos tinha fumado algum… mas o que interessa é que os acontecimentos se sucedem numa velocidade vertiginosa, numa lógica dodgsoniana, menos absurda que a da outra menina. Santos Dumont ainda não inventara o relógio de pulso, então a referência à velocidade do tempo vem do “cebolão” que o coelho leva diante dos olhos.
Mas falando urbanamente, estamos sempre nos queixando da velocidade do tempo – que, salvo aberração astronômica desconhecida, deve fluir com a mesma velocidade, agora, do que na Idade Média.
É que lá, nos tempos em que a Chapeuzinho era conhecida sem comparecer em programas idiotas de televisão – e não direi que eram “bons tempos”… a referência à passagem do tempo, era a luz do dia e o ritmo que impunha uma vida essencialmente agrícola. No máximo, algumas cidades tinham, na praça principal ou na torre da igreja, um relógio de sol.
Dos tempos de Alice em diante – não é preciso lembrar que estamos com a Revolução Industrial em curso – já temos relógios laicos em toda parte e, principalmente, “o apito da fábrica de tecidos, que vem ferir os meus ouvidos”. E que obriga toda o a população urbana a tomar conhecimento de que está na hora do batente.
Há poucas décadas, havia um “regulador” do tempo, que eram as sessões de cinema: mudavam os filmes, mas não os horários. Mas era um comportamento livre, quem não ia ao cinema, não se preocupava com isso.
Na cidade atual, há uma escravidão atrelada à TV: mesmo que você não esteja interessado no noticiário, na novela ou na transmissão do futebol – todo o resto da humanidade está – e te obriga a manter o mesmo ritmo.
Então, não se queixem de que “o tempo voa”…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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