Dormindo no ponto

Nesses tempos neoliberais, uma coisa que era tão simples quanto usar um carro não próprio para um deslocamento, adquire uma complexidade descomunal e desnecessária.
Tempos houve em que havia os ditos “pontos”, que ainda têm esse nome, até que ocorra a algum nerd a serviço do poder mudar isso também. Ficavam, via de regra, nas praças – donde a denominação, “carro de praça”. O serviço não era muito, tanto que se criou a expressão “dormir no ponto”, isto é, esperando uma chamada que vinha por um telefone de campainha estridente, instalado no abrigo.
A primeira senhora paulista – de lá vinham essas novidades… – a chegar na rua, acenar e gritar “Táxi! Táxi!” causou espécie… e não conseguiu seu transporte. É verdade que já existia até o livro de crônicas do Mario de Andrade, “Taxi”, e a palavra, afinal, mais simples que “carro de praça”. Taxista também foi fácil de assimilar, como seguimento.
As corridas eram cobradas segundo uma tabela não impressa, que não lembro como funcionava. Mas depois foram instalados os taxímetros que, pelo desenho, eram chamados “capelinhas”, nos quais se dava corda como nos antigos carrinhos de brinquedo, com uma chave. Se o motorista esquecia de dar corda, poderia ter prejuízo na hora da cobrança… fazia um ruído tipo relógio, tec-tec-tec cada vez que mudava um algarismo – o que podia ser preocupante quando se estava com dinheiro contado.
Bem, esse sistema durou décadas e tudo já estava nos nossos costumes quando entrou a era digital – o taxímetro não faz mais ruído e – é minha imaginação e má vontade para com esses troços digitais? – a mudança dos algarismos do custo é muito mais veloz…
Houve alterações na cobrança que foram transitórias, como o direito de cobrar bagagem: coisa complicada, porque o volume além daquele do passageiro, pode ser uma sacolinha ou uma enorme e pesada mala de alguém em viagem, indo até o aeroporto… Deve ser essa a origem do costume de chamar os chatos de “malas”.
Não há o que dizer contra os serviços prestados via telefone, com cadastros que agilizam os serviços. Menos ainda, evidente, com a aceitação de cartões de débito para pagamento das corridas. Mas o painel diante do motorista foi acumulando telinhas e, depois do GPS, não é mais necessário conhecer uma cidade para ser motorista de taxi.
Mas “a coisa” fica realmente confusa com a entrada do tal do Uber – para mim, principalmente, porque faz parte da obrigatoriedade desse infame aparelhinho, o celular. Evidente que esse sistema deu cria e surgiram outros similares – e hoje, fazer uma corrida está se tornando um exercício de habilidade informática – e, como tudo o que vai prá um lugar tão fugaz como uma nuvem, não é confiável.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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