De novo, o ano novo

Não, não desgosto das festas de transição entre anos, o que já nos atormentou e o que ainda vai nos atormentar… aquele que não deixou saudades e o que vai deixar menos ainda.
Se não fosse o tumulto das pessoas que se acham obrigadas a comemorar viajando e se deslocando, seria, dentro dos óbvios limites, um clima festivo que sempre é positivo – principalmente pra quem, como nós, vive no Brasil, num baixo astral de 520 anos.
O Natal, além de apropriado pelo capitalismo, é uma data controversa. Independente de o aniversário de Jesus ser ou não – há discordâncias mesmo entre os pesquisadores e exegetas católicos – a variabilidade das culturas regionais leva a data do espírito natalino a ser comemorada com muitas diferenças: Santa Klaus, São Nicolau, Befana, Dia de Reis…
Mas não o Ano Novo, está na folhinha: “Primeiro de janeiro, Confraternização Universal”. Serve portanto a católicos, luteranos, budistas, islâmicos e tutti quanti. Dentro do melhor espírito politicamente correto, isto é, laico e anódino, sem graça.
A graça, a damos nós, comemorando – se é que há o que comemorar numa simples troca de data – como bem entendemos.
Há o lado negativo desses espetáculos ruidosos e fedidos, agressivos e antiecológicos de foguetórios – a pedir por uma lei rigorosa que acabe com eles antes da próxima passagem de ano.
Já perceberam, o que gosto é da comilança festiva: as reuniões com colegas, amigos, familiares, para comer e beber (decentemente), jogar conversa fora, contar piadas que não podem ser veiculadas, falar mal dos políticos, atualizar informações, trocar referências, dicas, contatos. Fazer a lista das “Resoluções de Ano Novo” – tipo parar de fumar, emagrecer 10 quilos, deixar de tomar refri, deixar o carro mais tempo na garagem – que, como é óbvio, serão esquecidas no dia dois de janeiro.
Lembrar de usar roupa branca, nem que seja apenas a calcinha ou a cueca, mesmo porque é tempo de calor.
Comprar com suficiente antecedência as vitualhas para a comilança – e lembrar de deixar em paz os coitados dos perus, já dizimados uma semana antes. Pegam bem umas lentilhas bem temperadas: aquele prato árabe com arroz e aletria é ótimo.
E bacalhau, evidente: são centenas as maneiras de preparar uma bela posta, e todas são excelentes. Desde que grelhado, acompanhado de batatas aos murros e nadando em extra-vergine, já que não podem mais nadar no Atlântico…
A cozinha vegetariana é mais rica e saborosa do que supõe nossa vão filosofia, acredito que tenha algumas receitas compatíveis com a data. Aliás comer menos carne é uma boa resolução para o novo ano…
Vinho para brindar, espumante ou não, é de lei. Afinal estamos trocando o dígito da dezena o que, nos tempos atuais, requer muita coragem.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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