Crônica desumana

Desde que comecei, a convite do DIARINHO e da Gazeta do Povo, com a atividade de cronista da vida urbana, uma idea me ronda o bestunto: escrever um texto sem interferência humana. Lembro que uma professora do primário nos leu uma página sem verbos, outra sem adjetivos: em ambos os casos, o resultado é forçado, mero exercício de erudição, leitura que não tem outro encanto além dessa peculiaridade. Como também, parece-me ter ouvido falar, em textos com todas as palavras começando com “f”. Ou era “c”?
Mas um feriadão que pude transcorrer lendo na rede de uma varanda, de uma rua tranqüila, quase que minha ideia da crônica sem gente se viabilizou. Levantando os olhos do livro – difícil, por se tratar de um “giallo” de Andrea Camilleri – eu via mais animais do que humanos. Razão maior, é claro, da calma da rua.
O ruflar de asas geralmente chamava para a elegância e o charme do voo dos pombos: transitando entre telhados e árvores, calçadas e muros, em sua atividade de procurar o alimento diário – e de enfeitar com vida as cidades hostis. São silenciosos, discretos, excelentes voadores. A parte sonora, fica por conta de outras espécies, as canoras, que alegram a calma da rua. Não tentarei enumerar, visto a dúvida quanto à nomenclatura, que pode diferir da minha cidade: mas por aqui, são mais de 20 as espécies de seres voadores que encantam os jardins que sobrevivem à fúria imobiliarista.
A parte mais interessante fica por conta dos cães, mas também é difícil alienar os humanos de suas atividades. Permitam-me esclarecer que não me irrito com latidos: sempre que um cachorro late mais do que o normal, a culpa é de alguma besteira ou crueldade – irrefletida que seja – dos donos. Uma boa parte, é trazida para as casas para cuidar e os latidos são seu trabalho, explicitamente. Outros são companhia – e desempenham maravilhosamente, melhor que qualquer cuidador profissional: dão atenção, alegria, amor incondicional.
Então, essa é a dificuldade principal de escrever: separar aquilo que são as ações motivadas por eles mesmos (muito poucas) das condicionadas pelos moradores de suas casas. Mas essas poucas ações, digamos autônomas, existem e, com mais tempo de observação, talvez fosse possível sistematizar. A passagem de alguns cães, revela no andar que estão indo a algum lugar, com objetivo que só eles sabem qual é. Em alguns casos, até com pressa, como se tivessem um compromisso com hora marcada. Claro, sua passagem provoca latidos de alerta nos demais, separados da rua por grades e portões. Outros, vêm para junto dos portões como se houvesse consultado um relógio: dali a pouco, as crianças da casa chegam das aulas, ou os donos do trabalho. As manifestações de alegria, em alguns casos, começam com uma correria pelo quintal, que só se entende quando o carro chega diante da garagem.
É um dos aspectos mais agradáveis, mais cativantes da “antiga” vida nas casas, com quintais, plantas e espaço aberto. Infelizmente, em trânsito acelerado para a neurotizante – seja para os humanos, seja para os animais – vida de apartamento.
Minha vontade de escrever uma crônica só com animais, como vocês perceberam, ficou para outra ocasião…

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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