Como era o nome dela?

Não lembro o nome… era uma senhora que morava na esquina da minha quadra. Idosa, magrela, grisalha – sempre com uns vestidões pelas canelas e chinelos, e blusinha de lã. Vivia com a irmã e a filha, havia muitas décadas, desde que enviuvara.
A casa era um paraíso: terreno comum, mas denso de vegetação e de vida. Árvores grandes e pequenas, arbustos floridos, plantas medicinais, horta de temperos – pequenas trilhas permitiam acessar tudo aquilo, entre canteiros delimitados por tijolos, contornando a casa. Algumas vizinhas lhe caíam no agrado e ganhavam mudinhas de flores raras, que ninguém mais conhece. Em frente, entre o muro e a calçada, uma quaresmeira que florescia fantasticamente todo ano – e que as forças do mal conspiraram até cortar. Poço – o exame da água revelou contaminação, agora só as plantas recebem a água fresca e inesgotável.
Ah, a casa! De tábuas, poucas pinturas tivera em sua existência de quase meio século – mas inteirona. Grandes telhados no sentido do comprimento, beirais sem lambrequins, varanda nas duas laterais – uma ensolarada, outra sombreada. Janelas de duas folhas sempre abertas para arejar, o vento agita as cortinas pra dentro e pra fora. Cães e gatos – e até mesmo passarinhos – entram e saem à vontade pela porta aberta da varanda. Muros baixos, dos tempos em que a gente não tinha que viver fortificado em casa, quem estavam presos eram os ladrões e bandidos.
Lá dentro, o charme da simplicidade, mistura de móveis de épocas diferentes. Alguns, na prestigiosa imbuia. Colunas com vasos pelos cantos. Na cozinha, o fogão de lenha inativo junto do guarda-louças, a folhinha. Convive numa boa com o de gás e seu botijão. Em alguma gaveta, deve haver um daqueles engraçados “ovos para cerzir meias”… e fita métrica, agulhas e carretéis de retrós… a gente costurava tudo em casa, né?
O mistério: escada para o sótão, inexpugnável. O que pode haver lá? Coleções de fotos antigas em caixas de sapatos, trajes de há cem anos, livros comprometedores escondidos nas épocas de censura explícita? Um quadro de antigo pintor famoso que vale um monte de dinheiro? Uma boneca de porcelana inteirinha? Quem sabe, aquele Almanaque do Tico-tico para 1942 que falta na minha coleção?!
Muita vida para pouco tempo. Muita história para a mentalidade estreita dos donos do capital: em três tempos, sumiu tudo, em favor de medíocres construções com alto valor de mercado: iguais a milhares de outras, sem alma e sem graça.
Da quaresmeira, das plantas, dos bichos de convívio cordial, nada sobrou. A velhinha, idosa demais, foi pra outro lugar, estava difícil cuidar de tanto terreno.
As construções inexpressivas valem muito mais dinheiro que a velha casa de madeira, que a lembrança da senhora idosa andando pelo jardim cuidando de suas plantas.
Aliás, como era mesmo o nome dela?

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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