Colecionadores

Há quem os abomine, classificando-os como monomaníacos, acumuladores compulsivos, juntadores de sucata – ou simples malas, sempre procurando seus itens emblemáticos. Nos tempos do “desapego”, da entrega da cultura à globalização e ao poder do capital, facilmente o colecionador é alinhado com um tipo de deficiente mental.
E há quem os louve: fazem recolhimento e conservação de materiais com valor documental, histórico, iconográfico – então, abrem caminho para estudiosos, acadêmicos ou não, que transformarão suas coleções em trabalhos com níveis variados e refinados de cultura.
Acervos valiosos são montados por colecionadores que, o mais das vezes, não se preocupam com os aspectos teóricos – mas acho que o caso mais frequente, é o das pessoas que buscam nelas subsidiamento documental para estudar um tema.
Muito material valioso já foi salvo do lixo ou de fim irreversível por colecionadores. Ou não: à primeira vista não se enxerga o potencial documental de uma sequência de peças aparentemente comum. Mas que, alinhadas e pensadas, ou acumuladas com outras, podem representar conhecimento, levar a reflexões importantes. Como assim, importantes? No sentido de construção da cultura do ser humano, evidente. Embora a palavra “cultura” tenha sido malbaratada e levada por caminhos à mercê de tendências pouco sólidas, colecionar SEMPRE constrói, ainda que não se perceba como à primeira vista.
Um museu – dos menores, mais simples, aos mais conceituados – são apenas coleções, ou coleções de coleções. E se, por um lado, visitantes tipo turistas não vêm neles mais do que um ambiente de curiosidades – essa não é sua função maior: eles são depositários dos tijolos para a construção do conhecimento. O risco atualmente é que acervos valiosos sejam usados sem critério histórico e científico, politicamente, por gente tendenciosa.
Há coleções – mesmo pessoais, guardadas em caixas – com valor histórico consagradas, que merecem ser consultadas por quem desenvolve temas, também eles, reconhecidos. Há tratados sobre como ler e utilizar sequências, por exemplo de numismática, filatelia, sigilografia. Mas essas são coleções consagradas pelo uso há gerações de estudiosos. Suportes como fotografia, desenho, manuscritos – para ficar nos mais óbvios. Já entraram na compreensão até das autoridades a importância de acervos de cartazes, filmes, gibis e outras revistas…
A facilidade gerada para captação de imagens na era digital, facilitou a formação de coleções indiretas, isto é, da imagem e não da coisa em si. Principalmente, relacionadas com a natureza: onde até há pouco tempo se matavam animais para os museus de história natural, atualmente se colecionam filmes e imagens sem necessidade de práticas de crueldade. O melhor museu de história natural que conheço, é o Biomuseu do Panamá – onde, de retirado na natureza, há apenas, na entrada, um pedaço de recife de coral e uma peça artificial: uma extraordinária coleção de imagens, filmes, réplicas, maquetes formando um ambiente pra colecionador nenhum botar defeito.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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