Causo de estrada

Este causo não é urbano, como exigiria a minha temática – mas vocês vão ver que daria uma ótima cena de filme do Terry Gillian. Aconteceu numa estrada, em tempos menos tumultuados que os atuais para as rodovias brasileiras.
A moça protagonista gostava de viajar à noite e sozinha – menos movimento, menos tensão. O trajeto a que se propunha nessa noite era longo, entre duas casas da família, em estados diferentes. Vestiu-se com conforto para encarar horas ao volante: um vestido longo pelos joelhos, fechado na frente apenas pelo trespasse, que um cinto amarrado por um nó mantinha na posição.
Num dos trechos mais desertos da estrada, ela sente alguma coisa gelada, correndo agilmente, caída do teto do carro em suas costas, por dentro do vestido. Reagiu femininamente: soltou um grito, jogou o carro no acostamento, abriu a porta e se atirou para a estrada, arrancando o vestido, que jogou longe. Ação tanto mais complexa e perigosa, desequilibrada como estava sobre os mules de madeira de saltos altos que calçava.
O leve vestido, arremessado com força, nas ansiedades do medo, abriu as dobras, deixando ver que a “coisa” gelada era uma enorme lagartixa, intermediária entre estas e o jacaré, que saiu de dentro do tecido rebolando – remexidamente, diria o Fernando Pessoa – na fuga desesperada, em direção ao mato lateral da estrada.
Mas, vejam só – diante dos faróis do carro, em voo rasante, passa um ser muito grande, certamente uma coruja, projetando uma sombra assustadora sobre a moça – captura a lagartixa na corrida e, com ela pendurada no bico, desaparece na noite.
Enquanto isso, o que ainda faltava acontece: um caminhão, vindo em direção contrária, faz a curva e potentes faróis caem em cheio sobre o vestido claro, se remexendo ao vento, no meião da estrada.
O motorista certamente até hoje conta a história da madrugada em que viu, meio sonolento, uma moça fantasma nua, correndo atarantada pelo meio da estrada, quase caindo do alto dos mules, para pegar um vestido antes que fosse atropelado pelo caminhão.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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