Home Colunistas Crônicas da vida urbana A banalização da desgraceira

A banalização da desgraceira

É recorrente: não se trata só de insistência da mídia, embora seja ela o principal agente de banalização nos nossos tempos. Mas tudo – inclusive e principalmente desgraça – acaba cansando, no sentido de perder a força de impacto.

E o que pessoalmente vejo como decorrência dessa banalização, levada a extremos exaustivos, é a perda de foco: desliza-se – imperceptivelmente, para muita gente – para uma visualização onde se deixa de encarar uma situação onde deveriam prevalecer as posições técnicas, de pessoas para tanto qualificadas, para outras, nos quais esses pareceres se diluem.

Embora eu já tenha cansado do Vírus Chinês dominando as ações cotidianas, tenho que reconhecer que a insistência é indispensável para conter a pandemia. Depois de incorporados os procedimentos básicos, a neura só atrapalha e causa efeito inverso: por exemplo, com qualquer sintoma de abrandamento, as pessoas se folgarem e relaxarem antes da hora.

Consequência, a curva de incidência da doença volta a subir, em alguns casos acima do pico anterior. Não entendo dessas lutas esportivas, mas parece que há nelas um truque assim: um dos lutadores se faz de cansado, quase perdido, o outro acha que está com a partida ganha e leva a porrada que o liquida.

No fundo, no fundo, nossa Era é formatada prá isso: com o planeta entupido de gente, qualquer coisa se torna comum. Mesmo na iminência de um fator capaz de reduzir essa população, tudo se torna vulgar, recorrente, banal. As referências à Gripe Espanhola, por exemplo, se tornaram frequentes, depois de décadas de esquecimento. E a “Peste Negra”? Recomendaria a leitura de “Os noivos”, de Alessandro Manzoni (no original “I promessi sposi”) para recapitular uma pandemia ainda mais antiga – e uma das que deixou marcas mais profundas. Mas nossa esquálida memória prefere esquecer esses maus momentos, o que significa cair nas mesmas armadilhas novamente.

Me coloco nessa posição, ao constatar que é minha quarta crônica falando do Vírus Chinês: a coisa se torna obsessiva para além do campo consciente.

Mas talvez o pior aspecto da banalização seja a apropriação por parte dos políticos – que, se não entendem de coisa alguma, menos ainda de um problema de alta complexidade como esse. No entanto, a mídia sobre o assunto faz com que seja “um bom negócio” se pronunciar a respeito – o que não deixam de fazer, e o resultado é um desastre que contribui para mais desinformação. A classe política brasileira não tem o mínimo de bom senso para deixar que o tema seja tratado por quem dele entende – a tentação de rebolar diante das câmeras é muito forte, vai que rende uns votinhos mais adiante.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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