As três telinhas

Em leitura recente, tomei conhecimento dessa expressão: “as três telinhas”. Há pouco tempo, usava-se “duas telas”: a pequena, significando televisão, e a grande, para o cinema. Lembro das histórias do Dick Tracy, onde a gente o via com um relógio de pulso bem mais precário que os atuais celulares e achava fantástico, “coisa de ficção científica”…
Como toda a tecnologia, não é boa nem má: é o que é, e adquire conotações positivas ou negativas segundo a usamos. Por exemplo, recuso-me a fazer matrícula nas “redes sociais”, não tenho tempo para selecionar suas infinitas informações, mas vejo quem faça delas um bom uso. Diria mesmo que nossa sociabilidade urbana tem ganhos notáveis – só não maiores que as perdas… – com elas.
A expressão “três telinhas” nos vem da China – onde, de repente, uma população de nível civilizacional menos que medieval, foi catapultada para a riqueza. E se deixou dominar pelo fascínio tecnológico.
Não vou investir aqui contra isso, não é o momento nem acho que seja o caso – apenas assinalar o quanto essa tecnologia cai como uma luva nas tendências urbanísticas. Que, se estão em gestação desde o século 19, agora pairam como nuvens negras, carregadas de raios e trovões sobre nossas cabeças.
Estamos nos acostumando a viver em espaços cada vez menores: não existe mais casa ou apartamento que comporte um espaço individual: no 19, havia os chamados “gabinetes”, femininos e masculinos, onde os moradores se recolhiam às suas individualidades. Ninguém precisa de espaço pessoal para passar horas celulando: a atividade pode ser mesmo na rua, no banheiro, em restaurante, na aula, em qualquer lugar. Também não vou criticar quem usa no avião: em vez de apreciar as delícias de um voo, fica enchendo o saco dos demais passageiros com aquelas luzinhas e apitinhos. Dizia minha avó, que não conheceu os celulares, “o que é do gosto, regala a vida”…
Nem mesmo a tela intermediária, do computador, estou em posição de criticar – quase toda a atividade de trabalho atual é muito agilizada pelo meio digital.
E a TV, bem, a “tivú” é o que sempre foi: continua válida a definição de Sérgio Porto com mais de meio século: “máquina de fazer doido”… É o grande instrumento de alienação e homogeneização das cabeças.
Mas, já nas últimas linhas do meu espaço, chegamos ao assunto: centralizando a vida das pessoas, as três telinhas viabilizam a vida sedentária, anti-social e trancafiada nos ínfimos espaços que são vendidos à classe média como moradia.
Para viver em função das três telas, um mínimo de metragem é suficiente.
É a contribuição do imobiliarismo aos divãs dos analistas.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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