Home Colunistas Crônicas da vida urbana As mocinhas da cidade…

As mocinhas da cidade…

…são bonitas e dançam bem…
( Nhô Belarmino e Nhá Gabriela)
À parte da conotação que a famosa dupla possa ter atribuído a dançar, vivi uma época em que o processo de sedução feminina comportava curiosas ações individuais.
A masculina aparência sempre passava pelos mesmos recursos: a pose de independência representada pelo cigarro; o carro indicador de padrão econômico; roupa para destacar eventuais atributos físicos ou pertinência a algum modismo.
A das meninas era diferente, no sentido de que as pressões – para não dizer repressões – familiares eram mais fortes. As mães atuais atravessaram uma fase aguda da afirmação feminista e tendem agora, acho, a ser mais compreensivas, aceitar mais naturalmente o processo de sedução das filhas. Então, as mocinhas da cidade usavam de recursos nem sempre aceitos familiarmente, o que as apresenta com um certo jeito de pioneirismo.
Por exemplo, muito antes da Mary Quant endoidar o planeta com a minissaia, as mocinhas tinham os truques de puxar o cós da saia por baixo do cinto, encurtando-as. Era particularmente usado com as saias de uniformes colegiais: ao chegar ao colégio, deviam passar por rigorosas e repressivas senhoras inspetoras – mas à saída, o trajeto até a casa era um passeio…
Acho que foi antes disso que as experiências atômicas no atol de Bikini – dizem que até hoje radioativo e inabitável – as mocinhas tornaram o mundo não só mais habitável como mais olhável, “tacando a tesoura” nos vetustos maiôs inteiriços e transformando-os em “duas peças” – que mais tarde, evoluiria nos, esses sim, atômicos biquinis atuais.
E houve o capítulo dos jeans – que chegavam ao comércio importados, caros, sob a insubstituível etiqueta “Lee”. Calças que eram submetidas a uma tortura da qual não consta que deixassem de gostar: compradas um número menor, ajustadas, encolhidas e desbotadas. Atualmente, já se encontram até rasgadas e puídas, mesmo sem uso, e custam mais do que as, digamos, com aspecto de novas – no capcioso vocabulário comercial neoliberal, foram “customizadas”.
– Se o general Lee soubesse por onde andaria seu nome, a tal Guerra de Secessão tinha dado outro resultado. Ou não, é claro.
Antes das atuais calças de malha, aderentes, havia procura nas lojas tradicionais pelas famigeradas ceroulas – que eram usadas com botas, em lugares chiques, pelas mocinhas da cidade, quando aí iam dançar.
Na vida urbana acontecem fenômenos curiosos e inevitáveis. Os da presente crônica, são o que um latinista chamaria de una tantum, um entre tantos.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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