Antigos referenciais

Não é mania com “coisa velha”, achar que tudo é patrimônio histórico: é, simplesmente, uma consideração de respeito. Respeito para com o que custou recursos humanos e materiais, e representa investimento de tecnologias que, conquanto superadas, foram o suporte do que se seguiu como evolução.
Uma velha igrejinha não é “histórica” porque os curadores de patrimônio cultural inventaram isso: ela custou e muito. O padre saiu atrás de doações, a comunidade organizou festas e rifas para levantar recursos, discutiu-se um projeto, um construtor fez esforços para que a obra resultasse estável e bem acabada. Os santeiros usaram de sua arte para talhas, imagens e pinturas, móveis e utensílios rituais.
O mesmo com construções que vejo serem impiedosamente suprimidas da paisagem, anulando referências de décadas.
Cito um exemplo curitibano como emblemático, mas é coisa que acontece em toda parte.
Havia uma sequência de grandes estruturas – quem já andou por aqui conhece – suportes de cabos de alta tensão entre a usina geradora e as estações urbanas de distribuição – é, as “torres” de aço que deram nome à avenida. Foram substituídas por outro tipo de linha de transmissão, provavelmente subterrânea, invisível. Tudo bem: não sou eu quem vai discutir a conveniência dessa substituição, sempre achei que o ligar de fiações e dutos é enterrado, muito mais seguro e estético para a cidade.
Mas por quê não deixar umas poucas, para dar sentido à denominação que a avenida teve durante décadas, “Avenida das Torres”? Pelo menos umazinha… A referência é tão forte que, embora o nome da via tenha sido alterado, a gente continua a chama-la pelo nome funcional, a avenida que tinha torres…
É o que os historiadores europeus chamam de “testemunhos da Era Industrial”. Em Sibiu, na Romênia, há uma das primeiras hidroelétricas do mundo, em pleno funcionamento, embora só contribua com um por cento da energia consumida na região. Mas é extremamente interessante, fascinante, cinematográfica…
E assim, muita coisa: derruba-se, demole-se, elimina-se da paisagem sem consideração alguma. Poderia ser mantido pelo menos seu caráter referencial, simbólico, afetivo.
Usei, como emblemático, o caso das torres de transmissão elétrica, mas há muita coisa que poderia continuar participando das paisagens de nossas cidades pelo menos como referência, talvez com uma função revitalizante: pontes, chaminés industriais, velhos galpões industriais, chafarizes, calçamentos, caixas d’água e outros equipamentos urbanos.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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