Home Colunistas Crônicas da vida urbana Amarelinho: é tudo mentira

Amarelinho: é tudo mentira

Foi há décadas: da janela da cozinha, via-se a desembestada verticalização do centro da cidade. Alguns prédios ostentavam, acima da cobertura, um anúncio em gás neon: terá seus problemas, como tudo o que o ser humano inventa neste mundo, mas era bonito ver aqueles desenhos feitos com luz no céu noturno.
Como novidade, foi divulgado que num dos mais altos recém construídos, haveria uma luz intermitente anunciando a previsão meteorológica: verde, bom tempo; vermelho, chuva; amarelo, incerto.
A era dos satélites artificiais tinha recém começado, e dizia-se que forneceriam dados para previsões meteorológicas precisas em qualquer canto do planeta. Perguntei a um tio agrônomo se ele achava que o tal sinal teria conexão com os Sputniks, ao que ele respondeu, cético:
– Lá de cima, previsão do tempo é com binóculo: é só observar o horizonte a sul e a sudoeste pra saber o tempo que vai fazer.
Nos tempos seguintes, entendemos que nem binóculo era usado: salvo uma ou outra ocorrência muito óbvia, o tal sinal estava SEMPRE amarelo, e foi apelidado de “Amareliho”…
Comprei uns livros e comecei a observar nuvens e ventos, e a única decorrência foi consolidar o que todo mundo já dizia a meu respeito: “esse, vive nas nuvens…”
Mas independente disso, percebi que esses indícios não são seguros – ou melhor, são muito instáveis, sujeitos a mudanças radicais em questão de poucas horas.
Mais tarde, já com a tecnologia dos satélites vulgarizada, comprei durante um ano um jornal que trazia a foto diária do continente visto de um satélite meteorológico. A ideia era fazer uma animação: fotografar uma por uma com a câmera de Super 8 e passar a 24 quadros por segundo. Mas um conhecido meteorólogo me desiludiu:
– Você só vai ver o que já se sabe, as frentes se deslocando a partir da Antártica, nem a velocidade delas vai conseguir avaliar.
Desisti, é claro, além do mais os quadrinhos do jornal eram mais interessantes que as fotos, muito mal impressas.
Minha mais recente tentativa de poder programar minhas atividades de jardinagem para o dia seguinte, foi o boletim meteorológico dos noticiários da TV. Mas além da chatice de aguentar a tendenciosidade das notícias antes e depois, essa fonte também não é segura: com toda a tecnologia disponível atualmente, a previsão meteorológica continua precária.
Dá a impressão que estão manipulando a gente em alguma direção, como fazem com as demais notícias:
– Podem ir gastar na praia, vai fazer sol…
Vai nada, com relação a qualquer noticiário de previsão de tempo, só há uma verdade: eles não sabem de nada, é tudo mentira.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com