A vida urbana

Tenho escassa confiança no ser humano e na maior das suas formulações, a cidade. Às vezes, me vem a sensação de que alguma coisa fundamental está errada nessa configuração.
Quer dizer, é o pessimismo ao qual fui conduzido por décadas de vivência e observação do quanto somos uns seres intolerantes, enfezados e pouco cordiais. Entre nós mesmos, mas principalmente, com as demais espécies animais e vegetais, com as quais convivemos e das quais depende nosso equilíbrio emocional e ambiental. Talvez nossa espécie não tenha sido programada para configurações de alta densidade.
Evidente que estou me referindo a uma parcela de população – mas não a uma cidade específica, nem época, nem condição particular alguma.
E qual é essa parcela, que me faz tão pouco confiante no futuro das cidades? E, por extensão, do ser humano como espécie? É, certamente, uma minoria. Mas é uma minoria com a qual a gente tem que conviver nas ruas e nos espaços da cidade. Seja a pé, mas especialmente no trânsito: estar num veículo, parece que as faz superiores ao restante dos mortais. Pode ser uma bicicleta: mas quem está nela, se acha com prerrogativas divinas de vida e de morte sobre “o resto”.
Principalmente, quem convive com um número maior de pessoas, em algum momento: onde mora, onde trabalha, onde estuda, onde circula, está sujeito a essa arrogância. O bom trato, as gentilezas necessárias, a cordialidade identificada por Sérgio Buarque de Holanda, que se dissolveu em algum momento da nossa história social.
Não falta o outro lado – gente que não só faz a sua parte, mas contribui para amenizar a de quem não a faz. Essas pessoas é que mantém a coesão da vida urbana em níveis toleráveis.
Um presidente americano, de triste memória, às voltas com um escândalo que o levou ao impeachment, afirmou que seu governo se sustentava por uma “maioria silenciosa”.
Bem, pelo menos no Brasil, isso não existe: quem manda são as minorias ruidosas e as maiorias se encolhem, intimidadas. Inclusive na vida urbana: quem a torna tolerável, é essa minoria de gente para quem “urbanidade” é sinônimo de “civilidade”.
Remédio, solução, amenizante?
Civilização. Com mais uns 500 anos, talvez seja possível descobrir onde erramos – por enquanto, há muita poeira de poluição no ar, densas cortinas de fumaça espalhadas pelos donos do poder, muita agitação descabida no ambiente. Dá pra saber que alguma coisa está muito errada – mas sem visibilidade, não se pode ver como consertar.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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