A madorra e o saci

O maior sacisólogo da cultura brasileira, Monteiro Lobato, escreveu que o personagem só comparece a quem “cai na modorra”.
O autor, além de criar dezenas de neologismos, era chegado em prestigiar palavras originárias dos interiores e urbanamente pouco conhecidas. “Modorra” é uma das boas, exemplo típico, apesar da semântica meio ambígua.
Particularmente, aprecio a sensação quando em fase de elaborar – elocubrar, dirão alguns – textos e trabalhos diversos, escritos ou não, entre os quais, é evidente, essas crônicas.
É especialmente indutor do “estado modorral” uma rede – em cama e cadeira não funciona – uma temperatura amena ou tendendo ao calor, mas então amenizada por uma brisa.
Não é preciso um silêncio sepulcral, mas tão pouco ajudam música e menos ainda, sons altos de qualquer natureza. No máximo, um canto de sabiá, curruíra ou tico-tico.
Ler um pouco para induzir à modorra é muito bom – acelera o processo. Viaja-se por mundos não imediatos, desliza-se para fora da realidade envoltória e com isso as ideias se assanham. Ainda que essas possam ser classificáveis como sendo “de jerico”, mas sempre são ideias. Melhores que o vácuo…
Com todas as condições favoráveis proporcionadas pela modorra, lá vem ele – ou pode vir, porque às vezes, falha. Saltando na única perna – Lobato dizia que o saci não salta, anda com uma perna só como se tivesse as duas – rindo baixinho e debochado, soltando baforadas de cachimbo caipira na cara da gente.
E aí acabou o sossego. A modorra, em seu componente de sonolência, se dissolve, o livro cai da mão, a rede fica desconfortável. O sujeitinho, pra usar outra expressão lobatiana, é do tipo “agarra-e-não-larga-mais”. Fica ali cutucando, atazanando, perturbando, se metendo e não deixando pensar em outra coisa. Não adianta gritar um irritado “cai fora, pô” – ele permanece até a gente sair da rede e providenciar o que ele sugeriu. Escrever, desenhar, ou pelo menos anotar.
Vocês entenderam, né? Uma crônica é um saci.

Key Imaguire Junior

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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