A gente das ruas

Antes de mais nada, vamos esclarecer bem: o que segue não contém rejeição – nem aceitação, é claro – da minha parte. São constatações com uma certa dose de perplexidade, nem mesmo me surpreendem.
Assim: o ser humano está homogeneizando sua aparência – no sentido de dissolver características antes marcantes. Mesmo os identificadores de nacionalidade ou região, faixa etária, condição profissional ou social – estão cada vez mais tênues, mais difíceis de encontrar.
Sem dúvida, essa “igualificação” da humanidade se dá, antes de mais nada, pela vestimenta. Se a gente “recortar” uma rua do Leste Europeu e colocar numa cidade sul brasileira – algum observador, atento que fosse, não notaria tratar-se de uma população diferente até constatar o fator cultural – qual seja, o idioma falado. E também o vice-versa: a gente de uma rua sul brasileira, recortada e reinserida por lá, não causaria estranheza.
A “prova real” está nas hordas de turistas que infestam as cidades europeias: há diferenças fisionômicas, comportamentais, idiomáticas com relação à população local – mas nunca visuais.
Os jovens, com seu espírito novidadeiro, puxam a tendência – ou a aceleram. Mas, como ninguém quer parecer velho, a não ser nas filas de banco, os maneirismos de roupa tendem a ser absorvidos e usados pelas outras idades.
Mesmo os uniformes, identificadores de condições sociais importantes, quase não são mais vistos. As escolas os aboliram quase totalmente, mesmo os militares só os usam em situações internas ou especiais. Sobrevivem alguns que, nas ruas, só são usados para fins de ostentação: o jaleco dos médicos, o terno-e-gravata dos advogados e executivos, os óculos escuros e terno preto dos seguranças… Os próprios padres, na maioria, usam apenas uma camisa diferenciada e pouco evidente sob o paletó convencional.
Talvez a radicalização visual de algumas tribos urbanas seja um grito de desespero pela diferenciação, no ambiente onde tudo tende a se igualar: os exemplos mais evidentes, os punks e darks. Esses grupos têm ideologias muitos fracas – ou não têm nenhuma – sendo o principal item marcar sua presença no cenário urbano.
Até mesmo as expressões que designavam as pessoas vaidosas estão desaparecendo. Os “dândis” do fim do XIX, os “frajolas” e “janotas” dos nossos avós, os “boa pinta” dos nossos pais – tem uma palavra atual para eles?
(No meu tempo de colégio, usava-se o nome de um refrigerante então entrando no mercado brasileiro: encontrei fulano na rua ontem, estava muito cocacola…)
Talvez o fenômeno se explique exatamente pela multiplicação da tabela de códigos visuais: qualquer pessoa faz sua própria combinação pessoal, usando penteados, grifes, acessórios, tatuagens, coberturas, cores – esperando ser diferenciado por elas. Mas é claro que o resultado, como dito no início, é uma homogeneização cada vez maior.
Isso aí dá uma boa tese – quem a escrever, por favor, ma mande uma cópia…

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
Compartilhe:

Deixe uma resposta

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com