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A cidade e a não-cidade

O oposto de “cidade” não é “área rural”. Entre as duas, há diferenças exageradas de densidade humana e animal, de vegetação, e de muitos fatores ambientais. Principalmente, eu diria, diferem nos comportamentos, sensações e tempos de quem nelas vive.
O que se opõe com maior contraste à cidade, é a rodovia. Não a estradinha de terra, de pouco tráfego, poeirenta ou lamacenta – mas, de qualquer forma, tranqüila.
Não é permitido perceber essa diferença: a rodovia é um monstro assassino, impiedoso, implacável: você é aceito nela sob a explícita condição de pagar e sair o mais rapidamente possível. Sob nenhum pretexto, pode parar para seja lá o que for – a não ser que ela – vale dizer, seus donos – te obriguem a isso.
As pausas para refeições e descanso são extremamente limitadas – e, percebo, aceitas de má vontade, sem consideração por quem tem um ponto comercial dependente do trânsito rodoviário.
Locais de paisagem privilegiada – uma das boas razões para se viajar – são cerceados. Afinal, não dão lucro para as concessionárias.
Nas rodovias são massacrados diariamente – ou noturnamente, se se preferir assim – pequenos animais, domésticos pertencentes a moradores das imediações; ou silvestres, inocentes da violência que representa aquela interferência em terras suas desde sempre, por destinação da Natureza. Não se viaja numa rodovia sem o deprimente espetáculo de animais estraçalhados a curtas distâncias um do outro.
Não se pode mais iludir os mecanismos de controle – que supostamente, devem zelar pela segurança dos viajantes, e que nos impedem de fruir dos visuais. Quando isso ainda era possível – antes de as estradas feitas com nosso dinheiro serem oferecidas ao lucro empresarial – era só parar num acostamento para constatar o quanto a estrada é o oposto de área rural – em suas várias gradações, dos densos centros urbanos às regiões de pequenos sítios e chácaras.
A estrada – ou melhor, a rodovia, que é a maximização da violência dos veículos sobre a terra e sobre os seres vivos – é um corte, um seccionamento na paisagem: campos, morros, rios, florestas – tudo é dividido de modo a separar mais que qualquer fronteira.
Poucos metros às laterais da faixa central tracejada em amarelo, barrancos e placas de aço na altura dos olhos das pessoas nos veículos, funcionam como as antigas tarjas de censura. As de quatro pistas, ida e vinda, terão lá seu prestígio com os motoristas – permitem que as distâncias sejam rapidamente transpostas. Não por acaso, vivem paradas por acidentes causados sempre por essa angústia tão urbana, de chegar logo sem olhar para os lados.
A viagem sem paisagem – o que, de trem ou avião, tem sucedâneos aceitáveis.

Crônicas da Vida Urbana
Key Imaguire Junior é arquiteto e Urbanista, graduado em 1972; Mestre em História do Brasil (1982) e Doutor em História das Ideias (1999). Todos os títulos pela universidade Federal do Paraná, onde foi professor de História da Arquitetura Brasileira, Patrimônio Cultural e outras disciplinas ao longo de 35 anos. É o idealizador da gibiteca de Curitiba, que em setembro de 2012 completou 30 anos de existência.
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